A Relutância Fundamental

 

"O Fundamentalista Relutante", de Mira Nair

“O Fundamentalista Relutante”, de Mira Nair

O professor paquistanês Changez (Riz Ahmed) é interrogado pelo jornalista norte-americano Bobby Lincoln (Liev Schreiber). Estamos numa casa de chá de Lahore, capital da província do Punjab. O motivo é o rapto de um outro professor, este norte-americano, numa atmosfera de crescente conflito entre a polícia, dominada pela C.I.A., e estudantes e apoiantes radicais. Talvez Lincoln seja um agente, um espião. E Changez, quem é? Através de uma rede de flashbacks, saberemos que se trata de um jovem veterano de Wall Street, educado em Princeton, de ascensão rápida na Underwood Samson, um pequeno tubarão financeiro no mar encrespado de Nova Iorque. Changez tem tudo: posto de grande poder – sobretudo na absorção/destruição de empresas -, conta choruda no banco, patrão admirador das suas valências (um enxuto Kiefer Sutherland), namorada “high-profile” (Erica, essa espécie de artista multimédia interpretada com a habitual boçalidade por Kate Hudson), o “sonho americano” a seus pés. Mas surge o 11 de Setembro: os comentários racistas escalam, crescem as desconfianças em Wall Street, há uma detenção no aeroporto apenas porque Changez tem “ar de terrorista” e Erica celebra o namoro com um trabalho oportunista que ele considera aviltante. O sonho está em pedaços. No presente da acção, Changez é um professor de ciência política na sua terra natal, de discurso inflamado. Mas terá a metamorfose chegado ao ponto da participação no rapto do professor? Baseado no romance do escritor paquistanês Mohsin Hamid e dirigido pela indiana Mira Nair – como a personagem, tanto Hamid como Nair foram educados em universidades da chamada “Ivy League” -, “O Fundamentalista Relutante” afasta-se com frequência das questões de identidade e choque cultural (duas especialidades de Nair, como provam “Mississipi Masala” ou “Casamento Debaixo de Chuva”) para se concentrar nas regras e trepidações do thriller. Riz Ahmed é excelente no seu solo entre firmeza e ambiguidade. Mas a intriga “policial” é uma muleta que, ironicamente, deixa coxo um filme prometedor.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a A Relutância Fundamental

  1. Tinha visto o trailer de apresentação. Estive, vai não vai. Não fui. Se calhar devia ter ido. A Nair merece.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Valeram as palavras, o alerta e o pensar. Vou, vou.

  3. nanovp diz:

    Cheira-me que o tema ainda vai dar mais uns filmes, e fiquei com curiosidade.

  4. Também vou.. Desconhecia e fiquei a querer ir.

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