Bolas de Sabão

 

"A Dactilógrafa", de Régis Roinsard

“A Dactilógrafa”, de Régis Roinsard

Nem toda a arte precisa de ser consequente. Tanto Camilo como Dickens passaram grande parte da sua vida a escrever folhetins nos jornais para pura fruição de um vasto número de leitores, e Verdi compôs sobretudo com vista a divertir e emocionar as massas (todos nós, portanto). Mas mesmo a criação artística do entretenimento – a arte de reconfortar, tão válida como a arte de perturbar – necessita de ser um pouco mais densa do que algodão doce. Não é que “A Dactilógrafa” esteja isento de charme: numa França idílica de finais dos anos 50, Rosa Pamphyle (Débora François) quer escapar das vistas curtas do pai, da mercearia que este gere e do casamento prometido a um mecânico local, tornando-se uma “rapariga moderna”. E o seu modelo de modernidade é ser secretária. A custo, consegue concretizar o sonho numa terra um pouco maior, Lisieux. Mas Louis Échard (Romain Duris), o empresário de seguros que a recruta, coloca uma condição à continuidade: Rosa terá de começar por vencer o campeonato regional de dactilografia da Baixa Normandia (ela escreve à máquina a velocidades alucinantes mas usa apenas os indicadores, como uma criança). Com uma desculpa estapafúrdia, Louis convence Rosa a instalar-se na sua mansão, treinando-a à semelhança do que fez o velho Mickey com Rocky Balboa. Como se a ideia não fosse, já por si, bizarra, há o inevitável romance a desenhar-se nas folhas A4.  Nesta primeira longa-metragem de Régis Roinsard, Duris é mais uma vez sólido como rocha e incandescente como lava, e Débora François tem o rosto e o estilo da época, uma mistura de Doris Day e Donna Reed com as fotos de Audrey Hepburn no quarto emprestado. Mas é tudo tão irrelevante que o sorriso se esgota ao fim de meia-hora, como acontece a quem se farta de soprar bolas de sabão.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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3 respostas a Bolas de Sabão

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Gostei de saber. Apesar do escrito ou à cause dele, o bichinho da curiosidade já mexe.

  2. nanovp diz:

    Depois de ler apetece sempre arriscar e ir ver, mas cada vez mais se entende que o mérito é o da escrita e não o da sétima arte….ficar-me-ei pela leitura…

  3. Thanks, dear friends.

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