Carta de uma desconhecida

carta desconhecida

13 anos é uma idade terrível para uma menina se apaixonar.

7, 10, 14 , 15 são idades graves, mas menos graves. Há que dissuadir a todo o esforço, uma jovem de 13 anos a iniciar-se em tal viagem irreversível.

Quando uma menina tem 13 anos, tudo à sua volta se mexe de uma maneira que antes nunca se moveu. Não se gosta do que se gostava e ainda não se sabe do que se gosta, mas tem-se ideia de querer gostar assertivamente de algo. Os adultos são repetitivos. Os rapazes mais estúpidos do que alguma vez já foram e as amigas falam alto e riem-se por tudo e por nada. Deixa-se de ter amigas. Fica-se só. Só com um grande espaço aberto para a imaginação. O intimo começa a revelar-se à luz de um candeeiro fraco proporcionando o ambiente certo para o culto da adoração. Seja ela qual for.

Ninguém se apercebeu que a menina de 13 anos de Carta de uma desconhecida, se estava a apaixonar perdidamente. Ninguém a viu para a poder salvar. Ela guardou o seu amor de todos, do mundo. Gerou-o e viveu-o em toda a sua plenitude, sozinha.

Só ela compreendeu o tamanho daquele amor. Só ela o viveu, mas Stefan Zweig sentiu-o e fez questão de me fazer sentir, de espreitar aquela adoração. Aquele estado de alma infinitamente, perturbantemente feminino. Fez-me regressar aos 13 anos e à solidão das emoções.

Sei ser tudo isto que te conto um exorbitar ridículo, loucura infantil. Devia ter vergonha, mas não me envergonho pois o meu amor por ti jamais foi tão puro e apaixonado quando aquando destes excessos ingénuos. Podia contar-te durante horas, dias a fio como na altura vivi contigo, contigo que quase não conhecias o meu rosto.

No caso desta mulher desconhecida, o culto de adoração, aquilo que ela dizia ser o seu amor, foi sempre o mesmo homem. Juntou duas máximas questionáveis, numa só vida: Foi amor à primeira vista, morreu de amor. Viveu perdidamente aquele amor em todas as idades.

Não se ficou pelos 13.

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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7 respostas a Carta de uma desconhecida

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    E ainda é dito não se morrer de amor… Belo desmentido!

  2. Amor da primeira à última vista. Para ler no Zweig e ver no Ophuls.

  3. Pedro Norton diz:

    Sandra: é ou não é um grande livro? Agora falta veres o filme!

    • Sandra Barata Belo diz:

      grande livro. grandes jantares do ET.
      estou a descobrir o Zweig.
      obrigada!

  4. Não veja o filme, Sandra, é belo e terrível e vai-se fartar de chorar!

  5. nanovp diz:

    Viagem alucinante, compulsiva…

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