Como destruir uma boa canção

Qual a melhor forma de destruir uma boa canção?

Hipótese 1: Pôr o Bob Dylan a cantá-la;

Hipótese 2: Dar-lhe arranjos à David Guetta;

Hipótese 3: Passá-la no genérico de uma telenovela portuguesa;

Hipótese 4: Acrescentar-lhe palminhas e lá lá lás do público;

Hipótese 5: Tocá-la 105 vezes seguidas durante mais de seis horas de concerto.

 

Por mais verosímeis que ao leitor/ouvinte possam parecer as hipóteses 1 a 4, por mais improvável que seja o cenário indicado em quinto lugar, a verdade é que é deste último que aqui vos venho dar nota. Não acreditam? É melhor acreditarem porque foi isso mesmo que se passou com os National (The National, para os mais puristas) e a sua (bela) canção Sorrow no início do passado mês de Maio no MoMa em NY. A que propósito? Supostamente “em nome da arte”, para “explorar o potencial de uma performance repetitiva para produzir uma presença escultural, através do som” (que fique claro que esta expressão, como as aspas o indicam, não é minha mas dos próprios National; não é minha nem podia ser, porque eu não faço a mínima ideia do que quer dizer). Bom, mas se o propósito é este, também é de perguntar, já agora, se a canção, a banda ou a arte saem valorizadas depois desta maratona em repeat. Cá para mim, mesmo sem ter visto ou ouvido para aí cinco horas e noventa e seis minutos do espectáculo (porque só vi e ouvi mesmo, e em registo vídeo, os quatro minutos que aqui vos deixo), a resposta é óbvia: nunca mais na vida vou ouvir o Sorrow (e, se os National se atreverem a voltar a tocar a canção em concerto em que eu esteja presente, nessa altura retirar-me-ei diplomaticamente para um xixizinho de três minutos). Quanto aos National, dou-lhes o benefício da dúvida enquanto grande banda que são: vou acreditar que alinharam nesta monumental seca só para provarem – a quem disso começasse a duvidar – que nunca serão uma banda de massas ou de antenas exclusivamente viradas para as tabelas de vendas, que, muito pelo contrário, o seu foco é outro, o de uma banda muito arty, que toca para intelectuais e se está nas tintas para unanimismos de público e de crítica.

 

P.S. Disse acima que dava o benefício da dúvida aos National. Mas tenho também de dizer que esse benefício foi encurtado depois de ouvir o sensaborão Trouble Will Find Me, o recentíssimo (lançado há pouco mais de uma semana) álbum da banda. A dúvida, agora, é outra: será que os National, como muitas outras bandas que chegaram a ser grandes antes deles, se aburguesaram de vez? Ou a desinspiração é passageira?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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7 respostas a Como destruir uma boa canção

  1. Diogo isso faz-me pensar naqueles casos em que um tipo se levanta, uma canção se nos espeta nos ouvidos e depois passamos o dia todo com o refrã<o a vir-nos à boca.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Um desgosto! Entendo-o.

    • Mas o maior desgosto é não ouvir nada. Ou só ouvir ruído. Espero que o Estado nunca nos obrigue a isso. O que sei é que já estivemos bem mais longe disso.

  3. nanovp diz:

    Concordo, mas deixa lá o meu Robert Zimmerman em paz, logo ele que deu temas para tantos cantarem…

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