Como seria um romance de Herberto Helder?

 

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Quando Herberto Helder fez 80 anos, no saudoso “É Tudo Gente Morta”, escrevi este texto. Retomo-o agora para “fazer cama” ao que hei-de escrever sobre “Servidões”, seu último livro. Vai ser já no próximo sábado, no “Está Escrito”, essa rubrica rotativa deste “Escrever”  que toca a todos os Tristes e agora me toca a mim.

Só há uma forma de falar de Herberto Helder. É ser simples e claro. Nasceu e cresceu como era obrigação dele e nada disso vem ao caso. Interessa é que, desde 1958, a língua portuguesa escrita tem de lhe estar agradecida. Quando publicou “O Amor em Visita”, Herberto Helder mudou a geografia da língua, a sua moral. Nesse poema e na Poesia Toda que é a obra dele, introduziu uma riqueza lexical que nenhum outro escritor da língua, brasileiros incluídos, se sentira autorizado até então a utilizar. Com Herberto, a língua visitou o interior do corpo humano, desceu ao fundo escuro da terra, viajou cósmica, sem deixar de ser radicalmente vegetal.

Não há um qualificativo que consiga exprimir a estatura da revolução que a poesia de Herberto operou. Deixem-me utilizar a palavra moderno, apesar da debilidade e insuficiência semânticas. Herberto fez moderna a língua. Grande parte da literatura do século XX escrita em língua portuguesa, sem prejuízo do sentimento, da emoção ou, mais ocasionalmente, do pensamento que gera, é lexicalmente serôdia. Mesmo reportando-nos a figuras maiores, quando lemos Pascoaes ou Aquilino, talvez menos mas também Tomaz de Figueiredo, encontramos um sarro rural, uma culpa miserabilista, um esqueleto de piedoso realismo que ao desinspirar-se descamba no neo-realismo de Redol e Soeiro Pereira Gomes. É uma literatura de samarra e, se espreitarmos bem, de ceroulas. Não critico quem pleite pela necessidade desse retrato social ou da inspiração telúrica, e que, a muitos, tudo isso sincera e muito paroquialmente comova.

A língua portuguesa de Herberto é outra. Diferente mesmo da de Pessoa que, sobretudo em ele-mesmo ou Álvaro de Campos, a fez futurista e universal. Diferente da língua do contemporâneo Jorge de Sena que a fez discursiva e capaz de dialogar com Debussy ou com Goya. A língua que nos poemas de Herberto se escreve é o triunfo universal da imaginação, é a língua utilizada por um cérebro que usa a metade esquerda e a metade direita. Amoral, a língua de Herberto Helder exibe a volúpia do luxo, a volúpia da liberdade.

O luxo é, essencialmente, lexical: nele não há rasto das palavras que à exaustão foram o estandarte realista. Na poesia de Herberto surgem harpas, crateras, pólipo, mamilo, mãe, fenda, sexo, metamorfose, carne, veias, menstruação, pérolas, prata, planetas, átomos, constelações.

A liberdade é gramatical e associativa. Como um centurião romano se permitia o prazer reconfortante da sauna, assim Herberto ofereceu à gramática a entrada na literatura. Os adjectivos e os advérbios sentem os músculos soltar-se, gerúndios e particípios passados descobrem que afinal funcionam articulações que julgavam ossificadas.

Mas a liberdade maior é a associativa: a sua poesia dá a uma jovem mulher um arbusto de sangue, a figueiras pulmões de esponja branca. Na língua de Herberto pode sentar-se a paisagem numa cadeira e lê-la com extrema violência.

Permito-me a doçura de um lamento. A poesia de Herberto é curvamente narrativa. Povoada de corpos, um torcido dorso à volta da sua dor, anuncia histórias, a metamorfose de personagens, o espasmo de uma felicidade por vezes amarga. Essa dimensão romanesca testou-a o poeta num livro de contos, “Os Passos em Volta”, que é uma das mais belas experiências ficcionais da língua portuguesa. Em “Polícia”, um dos contos, vivido por um clandestino em Bruxelas, conhecemos a amante com que sempre sonhámos, Annemarie, aquela a quem foi concedido o dom da poesia subversiva: “Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falámos longamente da chuva, do amor e das leis”. A poética desses contos faz-nos sonhar com o que poderia ser um romance de Herberto Helder. A forma alucinante e tão precisa como descreve, a surpresa das situações (“Eu digo o teu cabelo. Ela está agachada junto à cama, procurando um sapato que se extraviou”), a simetria das frases, os finais assertivos, deveriam ter-nos dado o romance que, depois de Eça, a língua portuguesa precisava de ter para se juntar aos romances de Agustina e à excepção de “Os Sinais de Fogo” de Sena.

Basta que nos tenha dado a poesia toda. Deu-nos lume, o incêndio de versos longos. Esta exuberância, esta criação límpida é única na língua portuguesa. Podemos encontrar-lhe fôlegos de Whitman, a intensidade de Dylan Thomas, ou procurar-lhe nos versos o rumor humano, antiquíssimo, de François Villon. Em português não, não tem antepassados: Herberto Helder está condenado à brancura explosiva da originalidade.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Como seria um romance de Herberto Helder?

  1. Carla L. diz:

    Depois de tudo o que você, magistralmente, disse, Manuel, só nos resta ouvir: http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3241601

  2. Bem trazido de volta! Confesso que tenho uma curiosidade grande pelo seu próximo texto sobre HH. Não houve, com grande pena minha, imprensa de jeito sobre o assunto. E o que aqui aponta é uma questão que este Servidões confirma – a prosa, no caso poética, de HH é deslumbrante. Um romance dele seria, tem toda a razão, inaugural.

    • Eugénia, “Servidões” chegou agora e está a ferver em cima da mesa. Ninguém, digo eu, consegue mais do que balbuciar perante essa visão de nascimento e morte. Não me assuste que se não baldo-me… Agora o romance, sim, queria muito.

  3. Jorge Silva diz:

    Eu é que não consigo balbuciar nada de jeito perante este texto-constelação metamorfoseado em pólipo na boca da faca. Talvez seja o justo para Herberto.

  4. maria diz:

    Curioso,ainda ontem ao ler Servidões pensei o mesmo…que grande romance!
    Será que HH aceita pedidos?:)

  5. nanovp diz:

    Seria sem dúvida surpreendente como tudo que brota dessa cabeça única, agora tenho de me debruçar sobre Servidões que não tenho.
    Grande texto by the way !

  6. Rita V diz:

    daqui lanço um repto a HH
    que permita outra edição de «Servidões» para que os perigosos açambarcadores de cultura se afoguem nas dezenas de livros que retêm na esperança de vender «Servidões» a preços de joia rara.
    -Estúpidos, que não consegui comprar nenhum.
    Belo texto mestre,

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    ‘Bravô, bravô’! E não há engano no chapéu do «o».

  8. Miguel diz:

    A julgar pelos contos que escreveu, um romance de Herberto Helder teria sido bem medíocre.

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