Da continuação ao arrepio

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Eu sou aberto a mudanças, desde que as mudanças não me chateiem. Neste aspeto penso que sou vulgar de Lineu, igual ao comum dos mortais. Por isso, quando nos EUA passaram a responder hum-hum, em vez de you’re welcome, sempre que se diz thank you, isso não me afetou de modo nenhum. O hum-hum, dito na toada de you’re welcome, tem uma série de vantagens, sobretudo para quem pronuncia mal o inglês ou tem dificuldades em rolar os erres.

Já na nossa bem-amada lusa pátria as coisas são diferentes. Era eu um pouco mais do que cinco réis de gente e dizia-se “Não tem de quê” em resposta a um “Obrigado”. Mais tarde esta complexa oração foi substituída por uma outra, curtíssima e sem verbo: “De nada!”. Mais tarde ainda, retirou-se a preposição e ficou só “Nada”. Estávamos, pensava eu erradamente, que é das melhores formas que tenho de pensar, à beira do grunhido americano, só com um hum que substituiria aquela palavra dissilábica que, em si mesmo, quer dizer o contrário do que diz, porque dizendo nada quer dizer uma coisa.

Erro total!

Progressivamente, primeiro nos cabeleireiros (de homem já se vê, que eu sou dos que foram ao barbeiro enquanto os houve), depois nos quiosques dos jornais, mais tarde nos restaurantes e bares, uma frase complexa surgiu sabe-se lá de onde: “Boa continuação”. Eu penso que o inventor desta frase não é um génio gramatical, mas é um génio propagandístico – sub-repticiamente a frase indica-nos que o tempo despendido a cortar o cabelo, a comprar uma revista ou jornal, a beber um café ou a comer um prato da casa foi de tal modo exultante que merece uma continuação. Ou melhor ainda, uma boa continuação.

Como sempre, a frase foi depois encurtada. Hoje diz-se apenas “continuação”. Não sei se chegaremos ao “são” ou mesmo apenas ao ão. No entanto, e antes que isso aconteça gostava de declarar que eu não gosto que me respondam assim!

Eu não quero continuar. Se pudera arrepiar, arrepiava. E o que mais vos digo é que arrepiava com gosto. As coisas estão de tal modo que apenas arrepiando podemos sobreviver.

Espero que tenham entendido a profundidade do texto que vos deixei.

A todos, desejo boa continuação… E escusam de agradecer, não têm de quê!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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8 respostas a Da continuação ao arrepio

  1. Luís Paiva diz:

    Eu agradeço, e noto até prática similar no “eu dos que foi ao bar­beiro”… eheheh…
    Já agora, é “foi” ou “foram”?
    Abraço,

  2. celeste martins diz:

    Bem haja pelo seu texto. Lê-se com um sorriso !!! E o “bem haja” não sei se tem resposta correspondente. Mas ainda existe nas beiras, na baixa, pelo menos. Sem grunhidos nem monossilabos !!! Aqui a tradição ainda é o que era !!! Não sei até quando !!!!

    • Henrique Monteiro diz:

      Pois lá na terra diz-se bem haja! E nada se responde, a não ser bem haja vomecê também.

  3. Henrique, a ideia que tenho é que esse “continuação” começou por ser “continuação de bom almoço” (ou bom jantar ou boa refeição) quando alguns (que não eu certamente) se despediam de alguém que já ia a meio da refeição. Infelizmente, parece que a praga alastrou para qualquer despedida. Infelizmente, a regra hoje em dia são frases começadas por “é assim” e acabadas com “continuação”…

  4. Luísa Tavares de Mello diz:

    É tão gostoso lê-lo! O que escreve é simples com sublinhados deliciosos. Este comentário lembra-me o tempo em que o empregado de mesa, ao servir o prato, desejava bom apetite.

    Agora, se estamos acompanhados, além da mensagem do funcionário é o companheiro/a que deseja, no início da refeição, bom apetite! Eu suponho que estes votos dos companheiros/as são recentes – últimos 25 anos – Há 40 ou 50 não era assim, porque será? Aprenderam com os empregados e julgam que é de bom tom dizer? Ou haverá algum motivo que me escapa e certamente ao Henrique não escapará?

    Uma coisa é certa, quando me desejam bom apetite, em duplicado,apetece-me responder: ão, ão!

  5. nanovp diz:

    Fico com o “de nada”, porque não sei se vou continuar…

  6. Estamos sempre a perder coisas. Por preguiça, por uma suposta eficácia, rapidez e modernidade, não pomos um nome no começo de cada e-mail, não assinamos no fim… as mensagens ficam cada vez mais ferozes, despidas, a-estéticas. Nos sms, então é um por amor da santa que até dói. Não foi a Eugénia, num artigo que publicou no Público, que nos falou dos que já bebem café sem usar um pires, para não terem de o passar por água???

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