“Desço aos Infernos, a descer em mim” *

Narciso. Caravaggio, Galleria Nazionale d'Arte Antica, Palazzo Barberin. Roma. (circa 1597-1599; óleo sobre tela; 110cmx92cm)

Narciso. Caravaggio. Galleria Nazionale d’Arte Antica, Palazzo Barberin. Roma. (circa 1597-1599; óleo sobre tela; 110cmx92cm)

 

O mito de Narciso é um dos mais conhecidos, mormente pelo conceito de narcisismo formulado sobre o nome e fábula da personagem.

Eu acho que já disse, por aí abaixo, que os mitos gregos têm muitas e variadas versões. Burkett usou uma expressão muito feliz para designar a fixação da versão de um mito por um autor : cristalização. É difícil explicar por que razão um mito cristaliza numa ou noutra versão. Acontece. O nosso conhecimento do mito de Narciso funda-se, essencialmente, na versão de Ovídio no Livro III das  Metaformoses: Narciso, filho de um rio e de uma ninfa, era possuidor de tal desmesurada beleza que julgava não existir mulher alguma que fosse merecedora de dela ter o usufruto. A ninfa Eco, uma das suspirantes, tanto suspirou que deixou de ser ela própria para ser apenas um eco débil do seu sofrimento. A deusa Némesis, deusa da vingança na ordem dos deuses antigos, condoeu-se daquele lamento irremediavelmente repetido e quis punir Narciso, o desdenhoso. Fez, então, com que o jovem, ao debruçar-se sobre um lago para beber, se apaixonasse perdidamente pela sua imagem reflectida na água. Já agora, se virem alguém a mirar-se e remirar-se no vidro de uma montra, se calhar, não sei, é melhor ir avisar que aquilo sempre acabou mal. Narciso, incapaz de desviar olhos e mente da imagem que água lhe devolvia, era ao mesmo tempo amador e amado num amor inconcretizável e que lhe faz perder o mundo. Preso a si e em si mesmo, transforma-se lentamente numa flor amarela.

Assim, en passant, dá para reconhecer por aqui muitos elementos que dão pano para muitas mangas: excesso, imagem, representação, reconhecimento, espelho, eu e duplo, enfim, todas as reviravoltas de uma parte significativa do pensamento ocidental.

Umas das versão menos conhecidas aponta noutra direcção, pela mão de Pausânias: Narciso teria perdido uma irmã gémea que muito amava. Ao ver-se reflectido na água do lago, nessa imagem fingiu ver a imagem da irmã e, assim, deliberadamente entorpecido, ali ficou para não se separar dela. Até morrer.

O mito de Narciso é um jogo de espelhos. Entre O Estádio do Espelho de Lacan  e a Alice através do espelho de Lewis Carroll, sem falar dos outras lá mais para trás, corremos o risco de nos perdermos se não levarmos o GPS bem programado. Ou ajuda experiente, Nada mais perigoso do que mergulhar em si próprio. Nada de mais fascinante, também. Mas, por mais profundo que seja esse mergulhar, lá em cima está o mundo.

O étimo grego narke, torporde onde vem o nome Narciso, traz também a a palavra narcótico. Zona de perigo, portanto.

 

* “Desço aos Infernos/ a descer em mim” é o primeiro verso do poema “Descida aos Infernos” de Miguel Torga in Orfeu Rebelde.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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11 respostas a “Desço aos Infernos, a descer em mim” *

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Os espelhos, como a cópula, são abomináveis. Era o que dizia uma das Ficções de Borges, Uqbar, lembrando que cópulas e espelhos têm essa irresistível vocação de tudo multiplicar…

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      E sabe que o Edgar Allan Poe escreveu um tratado de decoração (quem diria …) no qual diz que um espelho não deve ser posicionado onde uma pessoa se veja sem querer? Eu sempre segui o conselho …

  2. António Barreto diz:

    Desconhecia a 2ª versão do mito. São fascinantes, os mitos gregos. Gostei.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E andava eu a congeminar texto sobre o narcisismo e mitos. Para quê? Afinal, A Ívone, como de costume, pegou no tema com inspiração e saber.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Ora, Maria, não seja por isso. Este tema tem muito por onde se lhe pegar. Pano para muitas mangas.

  4. Mergulhar em nós, desde que se saiba o caminho de volta ao mundo, é extraordinário.

  5. nanovp diz:

    Sempre bem lembrado Ivone, a História poderia ajudar a tantos que ainda se deixam influenciar pelos muitos espelhos da vida…

  6. Vasco Tomás diz:

    O texto que a Ivone coloca para falar de si tem uma beleza paradoxal: o apelo da escrita, nasce de uma alma abandonada e triste, entre a crueldade e a beatitude, mas a sua persistência, alimenta-se do sonho de criar uma alteridade, onde o corpo possa habitar no sossego e na plenitude da beleza encontrada.
    Parabéns, pela sua escrita, não tome demasiado a sério o que escrevi, procurei sintonizar com o seu estro, talvez não tenha conseguido grande coisa. Continue a escrever, a procurar a beleza, o mundo precisa também muito disso, Vasco.

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