Do ocaso

 

Quando chega dos lados do mundo
um ar que não respiro,
sei que os dias nascem cada vez mais tarde,
sei das vozes invisíveis
que detêm o fuso e a tesoura ácida do tempo
e ouço a cada hora
o bater dos remos na lagoa morta.
Perdi o óbolo e a senha
e nada me conduz ao círculo do poema,
mesmo que sacuda o pó e a memória
em cada soleira que piso.
Tenho um vestido velho de burel
e escorrem-me das mãos mitos já puídos.
O corpo de Thanatos
é a minha única praia branca. É o fim do meu tempo,
só vim para as exéquias dos deuses
que agonizam à vez junto à piras de areia.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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5 respostas a Do ocaso

  1. Esquecemos o óbolo, a fria praia branca. Anunciam-se os três meses de lindas manhãs

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Poema que, de tão cheio de imagens, para mim foi pintura de mestre. Vi cada uma delas.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      E eu tão feliz que fico com isso, ada melhor que verem-nos bem e ao que escrevemos.

  3. nanovp diz:

    Actual, Ivone, os deuses que agonizam, com o comum dos mortais, junto às piras de areia…

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