Em Terra Distante (I)

 

Paul Gauguin, Landscape with trees

Paul Gauguin, Landscape with trees

 

Não quero voltar a falar dele, não quero ouvir mais esse nome!

Era a forma de lidar com as memórias malfadadas do tempo antigo, que traziam imagens de gente estranha, tristemente dissimuladas em sorrisos falsos. Sombras de um tempo onde o frio das casas arreliava os nervos, as frieiras nas mãos escondidas por baixo da manta pesada. Era preciso preparar o amor, não se calculava o advir, apenas se segredavam os sonhos.

A casa, de um só piso, organizava-se à volta de um pátio de terra batida onde um pequeno jacarandá corcunda e velho largava sombra nos dias de sol, quando coberto de folhas. Já não era aí que vivia Isabel, pois tinha então alugado um pequeno apartamento na rua do cais, um quarto esquecido num primeiro andar, uma sala virada para os apitos dos barcos de madeira que a vapor subiam o rio lamacento, contra a corrente forte, sobre o fundo verde das bananeiras.

A cozinha, minúscula, dava para as traseiras, onde os telhados castanhos de chapa se enchiam de pó, ou lançavam riachos suculentos de lama na época das chuvas.

Era ali que se sentia feliz, e podia sonhar com Roberto, sem as perguntas roucas do pai, os pedidos incessantes e sem nexo de Pedro, o irmão mais novo, a telefonia que gritava trechos de novelas sem graça sobre famílias abastadas repetidamente dilaceradas pela inveja, o ciúme e a traição.

Era ali que era feliz, e podia sonhar com Roberto, como da primeira vez, quando o viu a sair de uma camioneta empestada pela capa fina da poeira de dez horas de trajecto pelas curvas da montanha, sob a sombra forte das árvores balofas, coloridas como pinceladas a óleo. Chegado de olhos cansados à baía de calma sonolenta, sobre um céu azul de manhã limpa, deu de caras com Isabel, perdendo-se no azul sem fundo dos seus olhos.

Por vezes, quando olhava pela janela da cozinha as folhas verdes das bananeiras que dançavam com o vento, deixava por longos momentos de lavar a pouca loiça suja da casa, para voar em memórias de quando se sentava nos bancos de pedra do esguio pontão que se enfiava pelo rio adentro, explicando pacientemente a Roberto a curta historia da vila, tal como a tinha ouvido pela boca de D. Ermelinda, a professora da primária, única e eterna, que durante anos, todas as manhãs da semana, declamava para a plateia reduzida, interessada e sonhadora, de memória, a fundação e origem, os tempos da seca, da fome, da peste, e tantos outros episódios que levantavam um leve véu sobre as singularidades da pequena terriola.

Era ali que Isabel era feliz, as rugas do tempo que secavam as lágrimas, a vida sentida no gosto da fruta doce, açucarada. A vila vivia os tempos da guerra, estúpida como todas, os tempos das mesmas pequenas mentiras no amor, dos homens milagreiros, que juntos com os corruptos bem vestidos, tinham soluções para problemas que pareciam não existir.

Era ali que Isabel era feliz depois de ter perdido, há muito tempo, toda a felicidade numa noite enublada, onde lhe tiraram tudo, e a vida também, com palavras subtis que nunca mais quis aprender. Foi o destruir de qualquer coisa que não tinha explicação, e para a qual não estava preparada.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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7 respostas a Em Terra Distante (I)

  1. Bernardo, plasme lá o ii que estou deserta para saber o que vai a acontecer nesse triste trópico isabelino!

    • nanovp diz:

      Não me ponha mais nervoso ainda que isto de editar também tem que se lhe diga!…corta aqui, corta ali, a ver se cabe….

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Uma bela ruga de tempo, Bernardo.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Remeteu-me para lugar com horizontes que nunca vi. E gostei da felicidade reencontrada pela Isabel. Nas vidas, regressa sempre. Outra, é certo, por serem precárias e únicas as felicidades dos seres.

  4. Olinda diz:

    já estou à esperinha.:-)

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