Gelo a Arder

"Caçadores de Cabeças", de Morten Tyldum

“Caçadores de Cabeças”, de Morten Tyldum

A Escandinávia está mais na moda do que a vodka Svedka (espera aí, a vodka Svedka também é escandinava). Depois do “boom” da literatura de crime, foi a vez das séries e filmes noruegueses, dinamarqueses e suecos. Nicolas Winding Refn (“Drive”) já andava por aí a fazer asneiras intrigantes há anos, mas Tomas Alfredson (“Deixa-me Entrar”, “A Toupeira”) e Joachim Trier (“Reprise”, “Oslo, 31 de Agosto”) são das maiores revelações da década e a trilogia “Millennium” gerou ‘hype’ global, inventando Noomi Rapace (“Prometheus”) e forçando David Fincher a engendrar remakes. Lukas Moodysson continua a reinventar-se, Roy Andersson voltará – finalmente – a rodar para o ano, Niels Arden Oplev já está em Hollywood, a co-produção regional “The Killing” foi um sucesso planetário, “The Bridge” está prestes a estrear em versão norte-americana na FX – a lista continua. “Caçadores de Cabeças” é um capítulo furiosamente agitado e deliciosamente humorado desta vaga glacial, onde Roger Brown (Aksel Hennie) é o Gulliver dos caçadores de talentos noruegueses mas vive cheio de complexos lilliputianos – uma espécie de Marques Mendes entre modelos para anúncios da Volvo. Talvez em regime de compensação, Brown tem uma mulher galerista que poderia abrir um desfile da Victoria’s Secret (Synnove Macody Lund), adoptando o hobby de roubar obras de arte, que substitui por falsificações. As coisas complicam-se quando conhece Clas Greve (Nikolak Coster-Waldau, o Jaime Lannister de “A Guerra de Tronos”), que tem um Rubens em casa. Numa montagem afiada como lâminas de caça, de reviravoltas mordazes e acção escatológica (quase tudo acontece ao anti-herói Roger), é um thriller criminal de primeira água, gelada. Resultado: Mark Walhberg prepara-se para filmar o inevitável remake. Conselho: fiquem-se pelo original.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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