I was in love with a german film star

I was in love with a german film star. Andava pelos catorze ou quinze anos e foi o meu primeiro, e talvez único, amor imaginário. Via-a pela primeira vez num bar. Sentada num canto, vestindo imperfeitas roupas. Tentando não fazer pose para as câmaras (que a perseguiam incessantemente) e para as outras mulheres (que também a perseguiam com o olhar). It was a glamorous world. Depois vi-a num filme. Num papel de mulher que arranja problemas (lembro-me de me ter perguntado então, na minha adolescente ingenuidade, se seria essa uma característica de todas as mulheres muito bonitas). Mas não me importei. Não me importei mesmo nada. It really moved me, it really moved me. I was in love. Deeply in love. Fiquei sem vê-la durante anos, décadas mesmo. Até que me apareceu há uns dias. Envelheceu bem. Não olhei para ela como dantes. Talvez porque já não acreditasse em german film stars. Ou por ela já não ser uma german film star, não sei. Sei é que a ouvi cantar de novo (ela também cantava, não o disse antes, todas as german film stars, no tempo em que as havia, cantavam). Não me tivesse deixado eu de amores imaginários, e talvez ficasse enfeitiçado como há trinta anos atrás.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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12 respostas a I was in love with a german film star

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Comigo foi fascínio. Imenso. Tanta beleza junta, deuses!

    • Só fiquei com uma dúvida, Maria: o fascínio foi agora ou há 30 anos? É que, se foi agora, ainda há por aí german film stars e eu sem saber de nada.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, e que era essa dúbia estrela germânica. Vê lá se se vai a ver e era só David Bowie.

    • Manuel, esse risco está afastado: o Bowie, nesses anos, já tinha largado a veste de Thin White Duke e abandonado Berlim. E andava mais entretido a brincar aos Scary Monsters.

  3. A malta está feita para se apaixonar:

  4. celeste martins diz:

    A imagem imaculada das ” stars ” que povoavam o imaginário juvenil deixaram lastro……!!!!

  5. nanovp diz:

    Só me lembrava da guitarra cheia de “chorus” e “delays”….parece que foi há séculos….

  6. Tão grande que nos deixa na dúvida se é mesmo só um tema pop.

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