Isto Está Preto

 

"Além da Escuridão: Star Trek", de J.J. Abrams

“Além da Escuridão: Star Trek”, de J.J. Abrams

Declaração de (des)interesse: a série de televisão “Star Trek: O Caminho das Estrelas” e, a seguir, a dezena de filmes com as mesmas personagens inaugurada em 1979 nunca me despertaram mais curiosidade do que a animação japonesa “Marco” ou essa célebre bomba lacrimogénia que dava pelo nome de “Uma Casa na Pradaria”. São curiosidades arqueológicas, próprias do seu tempo, e a melhor memória da odisseia protagonizada pelo capitão Kirk (William Shatner) e o tenente Spock (Leonard Nimoy) nas viagens da Enterprise é o curioso contraste entre o temperamento de um e a lógica do outro. A longa-metragem de estreia, assinada por um veterano da estirpe de Robert Wise (são dele o pioneiro “O Dia em Que a Terra Parou”, de 1951 e o brilhante “A Ameaça de Andrómeda”) tinha um guião singularmente cerebral, encenando o confronto entre Kirk, Spock e um megacomputador orgânico construído em torno da sonda Voyager, enviada dois anos antes pela NASA para o espaço. Em 1982, “Star Trek II: A Ira de Khan” ainda era um divertimento engenhoso, um jogo do gato e do rato entre Kirk e o seu nemesis Khan Noonien Singh (Fernando Lamas com uma inesquecível cabeleireira), mas os filmes seguintes – e a resma de variações televisivas – apenas atingiram a legião dos fanáticos. Em 2009, J. J. Abrams, o co-criador de “Lost” e um apaixonado por “A Guerra das Estrelas” – a paixão compensou, será ele a dirigir o sétimo capítulo da saga – foi convidado pela Paramount a ressuscitar o “franchise”. Daí resultou um olhar fresco sobre a génese da Enterprise e o encontro de Kirk, Spock, Sulu, Uhura, “Bones”, Scotty e Chekov. Este “Além da Escuridão: Star Trek” coloca um jovem Khan na rota de Kirk, agora na pele de Benedict Cumberbatch, que recupera a verve do seu Sherlock contemporâneo, acrescentando-lhe sombras. É tudo tecnicamente irrepreensível, e os efeitos 3D são superiores ao que se viu até agora, mas J. J. Abrams não tem a inocência de Lucas ou o génio de Spielberg – embora os temas da orfandade se repitam, e haja planos que dupliquem o estilo do autor de “E.T.” – nem a dupla de guionistas Kurtzman/Orci (“Transformers”) é propriamente Lawrence Kasdan ou Leigh Brackett (“O Império Contra-Ataca”). Portanto: se esperam ficar de boca aberta com o deslumbre, o melhor é esperarem algum tempo sentados.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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4 respostas a Isto Está Preto

  1. Bem me cheirava. Obrigado Pedro, ainda bem que dás os olhinhos ao manifesto e nos poupas ao castigo.

  2. vgrilo diz:

    Obrigado também da minha parte Pedro!

  3. nanovp diz:

    Nem abro a boca Pedro….

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    É simples: acordo total.

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