Leitura

 

Troco a vela que empurra a noite e colhe a palavra
e acerto com os livros uma história inacabada,
um fim que se entrelace nas últimas crinas da luz
de onde recolho alguns dias e os caminhos que conduzem a parte alguma.
Demoram-me as vozes e as imagens
no transbordo das páginas, com o seu coro de pequenos silêncios
que avançam de pés confiantes.
É por esse som ritmado no chão, eco tão antigo,
que lhes reconheço cada passo
como de um rei ausente
a efígie cunhada na memória.
Ou, mais perto ainda, o tronco de uma árvore larga
que me foi concha e agasalho. Casa nas escarpas,
exposta ao galope do mar.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Leitura

  1. Bruto da Silva diz:

    Antes por aqui: “É por esse som rit­mado no chão, eco tão antigo,
    que lhes reco­nheço cada passo”

  2. nanovp diz:

    Completamente arrastado pelas palavras Ivone, para essa terra de poesia e inspiração…

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