“Les Hommes Endormis” da Brigitte Bardot

Peter Engels

Peter Engels

Volta que não volta, lembro dos anos cinquenta e sessenta do século que já lá vai a diva do cinema europeu que todas as «esposas» sensaboronas temiam. A imagem fornecida da BB condensava inocência e sensualidade capaz de deixar em tremeliques orgásticos o mais pacato dos homens. E eles acorriam aos cinemas sós ou acorrentados pelas respetivas que lhes vigiavam pestanejares e trejeitos quando rosto e corpo perfeitos da Brigitte enchiam os ecrãs.

Autor que não foi possível identificar

Autor que não foi possível identificar

Se as fitas que estrelou enquadradas na nouvelle vague não deixaram grandes memórias, outro destino teve o “Viva Maria” em que partilhava a tela com Jeanne Moreau, bem como o subversivo “E Deus criou a Mulher” dirigido pelo marido, Roger Vadim. Perdura na memória a inesquecível cena em que dança descalça em cima de uma mesa, tida por uma das mais tórridas da história do cinema.

Simone de Beauvoir descreveu Brigitte Bardot como “uma locomotiva da história das mulheres”. Outros intelectos rotularam-na como a mulher mais livre da França no pós-guerra. Por esse tempo, nos «States», Marilyn Monroe borbulhava como ícone sexual, conquanto não fosse além do púdico maiô obediente aos estúdios hipócritas censores e conservadores. Na mesma época, BB atrevia o bikini, consagrava Saint Tropez, rendia stars & stripes ao seu erotismo liberto de amarras. Ficou popular o dito segundo o qual Brigitte Bardot era mais importante para a economia francesa que as exportações da indústria automobilística. Pena jamais algum pintor ou ilustrador lhe ter feito justiça, excetuando o escultor Alain Gourdon ao tomá-la como modelo para o busto de Marianne.

Ilustração cujo autor não foi possível identificar

Ilustração cujo autor não foi possível identificar

Venialidade: o gosto de ouvir Brigitte Bardot em “Les Hommes Endormis”. Nem a inefável Bruni atinge maior «delicodoçura». Depois, há aquela impressão da verdade do poema transmitida pela vida pessoal da BB: quatro maridos e vários ameaços endormis.

“Ils ont tous les mêmes manières
De peser au creux de nos lits
Abandonnés à leurs mystères
Sans façon désertant nos vies
Ils ont tous les mêmes manières
Les hommes, les hommes endormis

Ils ont tous le même visage
Serein détendu rajeuni
Ils ressemblent aux enfants sages
Comme parfois ils sourient
Ils ont tous le même visage
Les hommes, les hommes endormis

Repus et alanguis
Au creux de nos bien êtres
Ils dorment lourdement
Inexorablement
Avec de l’insistance
Même de l’insolence
Ils dorment libérés

Loin de tout, loin de nous

Les éternelles, les inquiètes
Les amoureuses attendries
Nous les curieuses on les guette
Avec des ruses de souris
Nous, les éternelles, les inquiètes
On les guette, on les guette
Les hommes… Endormis”

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a “Les Hommes Endormis” da Brigitte Bardot

  1. Alberto Perry diz:

    Sem duvida uma figura marcante da beleza femenina dos anos 60. Quem não teve uma teve uma tia que aspirava a ser BB? E hoje onde estão elas?

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Idosas como a BB sem, talvez, a mesma capacidade de intervenção social.

  2. Bruto da Silva diz:

    Alter nativa

  3. nanovp diz:

    Era diferente quando só existiam uma ou duas “musas”, diferentes, individuais, certeiras…agora pululam por aí, mas nem por isso desapareceram “les hommes Endormis…”

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Acordo absoluto. Tenho para mim que les hommes endormis são pecha sem remédio. Et les femmes endormis, aussi.

Os comentários estão fechados.