Linda e ligeiramente míope

Acreditem ou não, ainda eu mal tinha posto um pé na minha adolescência, apareceu lá no bairro uma Aline, de olhos cinzentos azulados. Linda e ligeiramente míope. Passámos a ouvir com devoção e arrebatamento esta “Aline” do Christophe. Terá havido um momento – se é que aos 14 ou 15 anos há momentos – em que Christophe foi mesmo o nosso herói.

Tínhamos uma desculpa: em Angola não havia televisão e nunca vimos estes olhos em alvo, a boca em bico, a palidez transilvânica. Jamais o professor Ramalho, nosso mestre de Educação Física dos 10 aos 14, que já via com maus olhos a Coca-Cola, teria aprovado tanto desfalecimento, tanta jeremíada des épaules.

E a Aline? Por onde andará o cinzento azulado dos seus olhos? Ficavam-lhe tão bem os óculos e o mais certo é, agora, usar lentes ou, a laser,  ter corrigido a tão aproximável e apaixonante miopia.

desire Neil Gaiman

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Linda e ligeiramente míope

  1. antonio diz:

    eu conheci essa Aline, morava no Bairro do Cruzeiro por trás do Cemitério Velho…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    É possível ,António. Lembro-me dela morar num bairro quase encostado à Estrada de Catete, antes de se chegar ao Cemitério Novo. Talvez a linda Aline levasse o nublado azul dos seus olhos de cemitério em cemitério.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Partilho o furor da lembrança da “Aline” do Chris­tophe. A imagem do Milo Manara fica tão bem lá em cima!

  4. nanovp diz:

    Belas míopes !!!

  5. Mas quem mais é ligaria a miopia à aproximação? É que não lhe escapa uma, parece mentira…

Os comentários estão fechados.