Menina Amor

Your life is your life

The Laughing Heart, Charles  Bukowski

Há poemas aos quais é preciso regressar uma, duas, três, dez, mil vezes e tantas quantas forem necessárias até que o corpo os saiba cardiacamente, compassados, bem respirados. Porque são poesia. E são sarça ardente. Revelações.

As mulheres não são como os homens. Não se partem da mesma maneira. Com ou sem ironia, são muito como as bonecas, são desmembráveis. E pensam que foi o amor quem as desconstruiu assim, e agora como é que volto ao lugar, como é que me colo. Há homens que têm natureza predatória – mulheres também. Hoje, neste tempo, não se pode dizer que é coisa de gente sem compaixão, tem de dizer-se, sem empatia e outras higienes para dar novo nome aos venenos. E convém fazê-lo sem advérbios de modo e sem recorrer à exclamação. Se o discurso se quer credível tem de ser átono. Porém a dor é adverbial e exclamativa e ouve-se – e o prazer.

Não falo de desgostos de amor. Falo de perigosidade. De destruição. Também isto acontece: crimes sem corpo de delito.

Os cordeiros oferecem-se, e não sabem, para ser sacrificados. Pensam que é amor. Que é isso o sacrifício do amor. A vida. E não é isso o sacrifício na sua dignidade, na sua honra: um leão pode dar a vida por um cordeiro, não pode pedir a um cordeiro que dê a vida por ele. Não é isso o amor. Uma vítima não sabe amar. É ignorante da sua própria e íntima verdade.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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11 respostas a Menina Amor

  1. Mas é, não é, muito difícil que o amor, a amizade, mesmo as mais simples das relações se passem entre iguais… É tão veemente o “silence of the lambs”. E é muito boa a sua imagem de cordeiro e leão.

  2. «The gods will offer you chances», independetemente da perigosidade e da destruição geral.

    • Claro que sim, querido António. Sempre.

      Uma das belas coisas deste inesperado Bukowski é a frase bíblica que ele altera, God delights in you, mais coisa menos coisa, para este gods que ele usa no poema em diferentes versos. É tão bonita essa timidez de compromisso com este Deus de esperança e certeza e vitória que se dissimula em poéticos deuses de voz mais baixa.

  3. Olinda diz:

    arrepiadinha com tanta verdade.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Declaro-me incoerente: para quê o meu comentário se considero tudo estar lá em cima magistralmente explícito?

  5. nanovp diz:

    A poesia forte, áspera como uma folha de lixa, o alcool escondido num saco de papel castanho, e o transcendente sempre ali, a olhar…bem trazido Eugénia, para nos revigorar a alma que tanto precisa…

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