Na berlinda: Rita, Eugénia e Henrique

Escreveu ser banal e ter orgulho no facto. Problema: o Henrique Monteiro não o é nem jamais o será. Pode intimidar – senti-o no início desta ‘Tristeza’. Leda suscetibilidade a minha! Viria a descobri-lo alimentando a verdade do simples, a partilha de histórias da vida, a condição de ouvinte atento.

Contradigo: a banalidade dos humanos é invenção. Cada ser é único o que rejeita pertença a rebanho, salvo em comportamentos coletivos. Neste enredo caímos todos. Sem exceções.

 Depois, há o mistério. A Rita Roquette de Vasconcellos e a Eugénia Vasconcellos representam-no neste mundo dos ‘Tristes’. Podem contar de si que continua por dissipar o manto translúcido da fresca neblina que as cobre. Podiam ser musas da Colleen Ross. E se aprecio mistérios desde o tempo em que roía maçãs enquanto os lia sentada num penedo! Esgotado o fornecimento levado para férias, renovava o stock nas gloriosas Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian. Por elas lavro os meus respeitos.

Remate: se o Henrique Monteiro é banal eu sou pileca mecânica.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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10 respostas a Na berlinda: Rita, Eugénia e Henrique

  1. G.Rocha diz:

    Hum se “espiolharmos” muito bem … todos os tristes são banais e misteriosos, caso contrário não estariam tantos tristes a segui-los 🙂

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Obrigada pelo apreço que manifesta aos ‘Tristes’. Mas será a G.Rocha banal? Não creio. 🙂

  3. Maria, este é o blog dos Vasconcellos (com um ou dois ll tanto faz). É uma misteriosa e perigosa associação, com tentáculos lusos e canarinhos. Nem sei, a bem dizer se, em Itália, o próprio Grilo não é também Vasconcel(l)os…

  4. Se Vasco é nosso, ficamos com os tentáculos felizes. Viva a biblioteca itenerária da Gulbenkian. E o Herberto Helder!

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Aos seus vivas junto os meus. Acrescento outro: «vivó» fim-de-semana!

  5. riVta diz:

    querida Céu e que bom é fazermos parte de uma família de tristes, ‘manto translúcido’ duma alegria que nos cobre e junta.

  6. nanovp diz:

    Pois nem o Henrique será banal, nem a Céu “pileca mecânica ” ( um nome que daria um bom titulo a um cd imaginário do Duchamp), nem nós somos, tantas vezes , tristes como o banner indica….

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