Não tirem o santo do altar

 

Alves Reis

Vejo os telejornais e fico inquieto.

Temo que Alves dos Reis, figura grada da parte mais benigna do meu imaginário, perca o seu lugar no pódium dos maiores burlões da história e seja atirado para o buraco negro do desconhecimento.

Alves dos Reis era um prodígio de imaginação e de iniciativa. Por falência da empresa funerária do pai, foi para Angola com a mulher e fez-se passar por engenheiro, o que, na altura, era um achado e era útil. Para o nobre e científico efeito forjou um diploma de uma escolas de Oxford, onde nunca se dignou ir às aulas, pela simples razão de que essa escola nunca abriu portas ou existiu.

Em Angola prosperou, comprando empresas com cheques sem cobertura, que cobria com o dinheiro sacado às empresas adquiridas. Tê-lo-á perdido alguma distracção, porque a sua irresistivel biografia o dá como preso, no Porto, em Julho de 1924.

O curto período sabático na prisão inspirou-o, dando asas à sua criatividade ímpar. Com engenho, preparou um contrato com o Banco de Portugal que o autorizava a fazer notas numa empresa licenciada para o efeito pelo próprio Banco. O contrato era uma fraude e as notas eram mais falsas do que Judas, mas irrepreensivelmente iguais às verdadeiras. E gordas: 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama.

Gama descobrira o caminho marítimo para a India, Reis tinha descoberto um caminho seguro para a fortuna. Com a cumplicidade de banqueiros holandeses, espiões alemães, empresas britânicas e o envolvimento de diplomatas portugueses, Alves dos Reis montou uma operação de falsificação cujo montante atingiu 1% do PIB português. Criou o Banco de Angola e Metrópole e, por pouco, não chegou a controlar o Banco central, o Banco de Portugal, que era então um banco privado.

Mas se Vénus o protegia, como antes protegera o Gama, outros deuses lhe devem ter falhado (talvez Mercúrio, rei dos ladrões) e o jornal “O Século”, fará em Novembro 88 anos, cheirou a marosca e começou a morder-lhe as canelas. Duas semanas depois, a 5 de Dezembro de 1925, “O Século” denuncia o caso em prosa impiedosa e no dia seguinte Alves do Reis é preso.

Cumpriu 20 anos de prisão. Quando saiu, propuseram-lhe emprego num Banco, um tipo de instituição em que notoriamente era especialista. Faltou-lhe sentido de humor e não aceitou.

Leio os jornais, ouço a TSF e vejo as televisões e o meu coração, que se comove com histórias de infâmia dignas de um Jorge Luis Borges, entra em arritmia. Os jornais anunciam golpes e Bancos que nunca foram – ou nunca deveriam ter sido – Bancos. Andam, digo eu, a tentar tirar um santo do altar. Com a falta de memória e de sentido de história que campeia neste Portugal do século XXI, ainda acabam por acreditar que qualquer ganancioso prepotente se pode comparar a um artista imaginativo, fascinado pela perfeição e pela ousadia poética dos seus golpes.

Ai de quem se esqueça do epitáfio do “The Economist” no dia da morte de Alves dos Reis. A melhor revista do mundo disse dele e dos seus cúmplices: “The perpetrators, however reprehensible their motives, did Portugal a very good turn according to the best Keynesian principles.

É mais do que pode dizer-se de muita gente honesta.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a Não tirem o santo do altar

  1. adelia riès diz:

    😀 Genial

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Olha quem foi lembrar! Tenho Alves dos Reis como um dos expoentes da lista dos portugueses que a memória coletiva deve guardar. Elevou o desenrasca luso e a criatividade inerente à máxima potência.

  3. António Barreto diz:

    Um ladrão com classe é o mínimo que se pode desejar e as democracias deviam garantir. Abaixo os ladrões de vão de escada! Fora!

  4. Este bandido era um crâneo! Correu-lhe mal a carreira. Podíamos ser um país rico…

  5. nanovp diz:

    Falta “panache” aos de agora….

  6. Vitorino Guimarães pede ao parlamento que lhe permita governar em regime orçamental de duodécimos. Por 52-24, a Câmara dos Deputados apenas lhe permite viver em tal regime durante o mês de Julho (votação em 26 de Junho). António Maria da Silva não alinha na proposta do presidente do ministério e este pede a demissão. Conforme observa Cunha Leal, esgotadas as soluções governativas democráticas de bonzos canhotes e centristas, ia cimentar-se, até mais ver o consulado de António Maria da Silva.

Os comentários estão fechados.