O Capitão

Menino Vasco, neste blog não se comem cães! Fora isso, é para que saiba o quanto gostei de ler a sua poética aventura militarizada: Portukill: iii e iii.

O CAPITÃO

Duas ou três coisas permaneciam em branco. Estar vivo era uma delas. Ele sabia que jamais fecharia aquele puzzle. Permaneceriam em branco. Como sabia também que a dúvida é dessa claridade que cega, que seca, desse mesmo sal que corta de sede e queima um corpo à deriva no mar. O seu. O inferno era branco.

A Europa desde o seu perfil Atlântico e até ao limite da Polónia, apodrecia. Dizia-se que parte da Lituânia e por ali acima até à Finlândia, e mesmo o norte da Suécia, tinham comunidades a salvo. Mas certezas, só a dos cadáveres putrefactos que ninguém queimara, do medo da contaminação, do perigo agudo e mudo que viajava em cada inspiração, das milícias que batiam o terreno a palmo. Miúdos de uma perfeição juvenil e animal. Assassinos como nunca antes, uma raça geneticamente manipulada, primorosamente condicionada. E, ironia, como qualquer boys band, girls band, atraíra a si milhões de quase crianças que lhe engrossaram as fileiras. Crianças filhas de pai e mãe, beijadas de nascença, bebé mais lindo não há. Vendiam os pais, a localização das células de resistência, as listas de nomes ditos desde a idade da fala, a troco de um lugar para matar e morrer.

A Europa renovava-se assim: livrando-se da pele velha. Era humana. Azar. Com o tamanho do ataque surpresa, não houvera tempo para uma resposta e o resto do mundo, hipnotizado em directo, assistia desde o pequeno almoço, e a barrar as torradas com compota, a este reality horror show que Rússia e China, aliadas, impuseram para redefinir o mapa geo-político, e a nova hierarquia feudal. Os senhores da media, os patrões do mundo, os donos da vida, desencadearam o jogo dos jogos, num espectáculo à altura do Novo Império do Oriente: o circo, de inspiração romana, tinha por arena um continente inteiro, e era patrocinado pelas grandes marcas há muito deslocalizadas. A lição era fácil de aprender para além do entretenimento que o espectáculo da morte sempre oferece, sempre ofereceu: não há nações, há marcas. Fora do poder corporativo, não há poder. Não há serviços públicos, de educação, de saúde, de informação, fora das multinacionais que os sustentam, o interesse público é definido pelo interesse empresarial. Feudos e seus barões e seus servos e suas alianças e traições.

O velho continente e os seus redutos de democracia, rijos como castros, eram um vício de pensamento e vontade que pegava de estaca. Todavia, bem pulverizado, renasceria limpo no mais perfeito dos centros comerciais, vendido ao metro quadrado de ouro: dos resorts de luxo, praia, neve, montanha, ao museu vivo da história do ocidente, uma Las Vegas de bom gosto, impecavelmente sanitária, segura.

O Capitão comia sol pelas pálpebras fechadas. Vira o horror do homem, a tristeza a rodos, a obstinação da esperança. Era uma carcaça a boiar de febre em quantos, três dias?, quatro, de mar alto. Eram sonhos que tinha? A naturalidade, e com que naturalidade tão pura, matavam os seus dois pretorianos, os Africanos. E o Genovês? Rápido a esfolar os cães. E comeram-nos, a eles que fizeram um pacto com os homens e abandonaram os lobos, dizia a voz dentro da sua cabeça, ou melhor, a voz em volta dela. Era um lobo, ele. És um lobo. Ainda ergueu o braço. Olhou o próprio pulso estreito de tanta fome, as veias dilatadas, cheias de memória, cheias de sangue: a mulher na ponte, séculos em pé, mesmo se sobre ruínas, e se tangente de água, ou sabe Deus como, era assim o amor, séculos de pé entre destroços, não desistia, uma ponte não se sabe para onde, o amor.

Ainda ergueu o braço. Como se a barcaça velha de óleo pudesse estar cega também de tanta luz e o deixasse para ser curtido à vontade das ondas, afogar-se de vez e inchar de búzios, cães mortos, búzios, filhos como o seu, tão amado e fardado de inimigo, areia e camarões. Limos. Búzios.

Ainda via o próprio pulso. Sentia que o puxavam todo pelos ossos para dentro de um Mercedes de estofos de pele e náusea.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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10 respostas a O Capitão

  1. cgs diz:

    No mapa das letras oftalmológicas, o E é T está ao vivo e a cores de morte. Gosto.

  2. Eugénia, que belo trabalho de restauro. Nasce aqui uma Europa nova, de areadas pratas. (Comer sol de pálpebras fechadas é um fulgurante símile.)

  3. A Europa está atirada aos tubarões, a América tem proteção:

  4. vgrilo diz:

    Eu não comi. Vi comer, mas não comi.
    Que gosto ver tanta luz e arrumação sobre os ossos desalinhados que deixei na areia.
    Obrigado Eugénia.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    E assim, de novo, me deixa sem discurso que alguma coisa de mérito acrescente. Adorei, «prontos»!

  6. nanovp diz:

    Querida Eugénia gostei imenso! “A Europa renova-se assim: livrando-se da pele velha.” Que belíssima e forte imagem….

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