O Dilúvio

Os tempos estão de revolta, de desesperança. Agora que o azul parece ter sorrateiramente aparecido a pintar a abóbada ainda celeste, renasce um pouco a esperança, mesmo sabendo que haverá nuvens, cinzentas ou negras, no horizonte.

Estar vivo é surpreendermo-nos todos os dias. Mesmo no desânimo, na tristeza. Mas estar aberto à surpresa do dia-a-dia não é fácil. Obriga a um esforço, a um persistente acreditar no sentido da vida. Sem isso ficamos obcecados pelo controlo de tudo o que se desenrola à nossa volta, pelo desenlace que queremos forjar na nossa imaginação. Quando bastava que nos deixássemos ser guiados, ser surpreendidos.

Com a falta de espanto passamos a ser sós, no imaginar do mundo, e no imaginar do seu fim, a conclusão final dos nossos medos, dos nossos piores anseios. Sem acreditar num sentido para a vida imaginamos o fim dos tempos.

Coisa que o Homem sempre fez. Todas as eras o projectaram, esse fim de tudo, pelo menos desde que o Homem teve a noção de si próprio.

E provavelmente todas as visões do homem sobre o seu fim são idênticas: A destruição e o fim da existência despoletado pelo desaparecimento do Homem.

Por isso, se tivesse que olhar o fim gostava de o fazer com uma imagem de Durer, “O Diluvio”, pintada em 1525, ou a visão do apocalipse no século XVI. Gotas espessas que toldam a paisagem plana e vazia. O dilúvio que também não aconteceu, por ser apenas um pesadelo que o próprio pintor sofreu e descreveu em palavras e em aguarela, ou seja o dilúvio que foi apenas imaginado.

E eu, para além de me deliciar com esta visão de pesadelo transformado em arte, imagino que o mundo vai continuar.

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Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a O Dilúvio

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Bernardo, como seriam os invernos de Dürer? De intempéries? E, as noites? Escuras, só o vento a soprar, persistente, monótono?

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Gostei muito da associação. A derrota final apenas a sentiremos quando o espírito se render.

  3. Assino por baixo, Bernardo.

  4. Maracujá diz:

    Que venha o fim…mas que venha mesmo.
    No dilúvio ou na chama.
    O fim é sempre melhor que o nada.
    Não suporto o nada.
    Que o fim me console.
    Porque o consolo não me alcança.

    • nanovp diz:

      Maracujá, o nada é o verdadeiro Horror, aí concordo! E o fim também pode consolar, por mais duro que seja…para quem acredita que ainda há uma passagem para outro lado o fim é mesmo um novo princípio.

  5. E eu assino logo ali por baixo da assinatura do nosso PMS.

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