O Eça sabia-o. Na verdade todos o sabem

Por razões que não vêm ao caso, ando a fazer para o Expresso um trabalho relacionado com os 125 anos de Os Maias, que este ano se assinalam(?) – se é que ainda alguém assinala feitos literários. Durante mais de um mês, e isto só vai terminar no dia 29, com a inauguração de uma biblioteca em Paredes de Coura, andei às voltas com o 50º aniversário da morte de Aquilino e com o 100º do seu primeiro livro, Jardim das Tormentas. Ora Eça e Aquilino são muito diferentes, mas têm em comum essa compreensão fina do mundo que conseguem descrever em duas frases, coisa apenas dada aos génios.

Estes estudos – como diria o Conde de Abranhos – têm-me tirado muito soninho. E como todos os dias escrevo um blogue de atualidade no site do Expresso, chego a baralhar-me com os tempos. É por isso que aqui deixo uma frase, a ver se os meus queridos tristes sabem quem a proferiu. Ei-la:

Meu caro, a política hoje é uma coisa muito diferente! Nós fizemos como vocês os literatos. Antigamente a literatura era a imaginação, a fantasia, o ideal… Hoje é a realidade, a experiência, o facto positivo, o documento. Pois cá a política em Portugal também se lançou na corrente realista (…)Hoje é o facto positivo, – o dinheiro, o dinheiro! o bago! a massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!

Se não fosse aquele “menino” a trair a origem, digam lá se ela não pode ter os 125 anos que têm Os Maias, os 100 que tem o Jardim das Tormentas”, os 50 e picos que têm Quando os Lobos Uivam, ou uma crónica escrita ontem.

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O Gonçalo, que a lança para o João da Ega, na redação do jornal Tarde, podia, de facto, ser um de nós.

Eça sabia-o. Na verdade, todos o sabemos. E assim somos! E se não me engano, assim vamos continuar

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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3 respostas a O Eça sabia-o. Na verdade todos o sabem

  1. Pois eu acho que li essa frase nos estatutos do BPN. Ou foi nos do BPP?Ou foi numa conferência do TED?

  2. Não sei se não saberei este livro de cor – estou a exagerar… mas um bocadinho só.

  3. António Barreto diz:

    “o dinheiro, o dinheiro! o bago! a massa”, ou ainda: o pilim, o cacau, o graveto, o milho, os ferrinhos, o faz-me rir (este é o de que gosto mais), aquilo com que se compram os melões…, por agora não me ocorre mais nada…

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