O gato e a alma

 

 

Nude with a cat. Balthus Óleo sobre tela, 80,5 x 65,1 National Gallery of Victoria. Melbourne

Nude with a cat. Balthus
Óleo sobre tela, 80,5 x 65,1
National Gallery of Victoria. Melbourne

Carlota, a mais velha, foi sempre uma fonte de desassossego. Fizeram-lhe a via-sacra dos psicólogos e armavam-se de uma paciência tem-te que não caias para lhe assistir aos desmandos que subiam de tom a cada nova investida na placitude de uma família pouco preparada para dissonâncias comportamentais. Às vezes, um primo maníaco, bem afastado num dos ramos colaterais, dá muito jeito para recolha de amostras e de metodologias ou mesmo a demência uma avó tardia em cuja memória e respectivo aparato narrativo se reconforte a incompreensão. Nada havendo com que responsabilizar a genética, passa-se adiante que é como quem diz à resignação.

Quatro filhas em escadinha pareciam uma bela organização de vida, asseguradas as voltas do quotidiano e as exigências práticas. Quando um risco de sombra lhes apareceu, a todas, nos olhos, a mãe preferiu resguardar-se de exprimir temores e prenúncios. Havia de ser a crueldade da adolescência ou coisa semelhante, já bastavam e sobejavam os oficializados desequilíbrios de Carlota. É sabido que ninguém é mais feroz a ostentar uma persistente cegueira do que uma mãe que tudo vê e a todos diz que é cega, até a ela própria. Pode, a quem está de fora, ser evidente o engano mas há complacências sempre prontas a secundar essas mitomanias afectivas, muita é a compreensão dos caminhos do sangue e ainda bem. Se há-de o mundo guardar alguma coisa, que seja por aí e depois se verá.

Por isso, alguém afirmou enquanto fumavam um cigarro na varanda, estas miúdas são umas cachorras e as que não ladram, piores ainda. Ao olhar inquiridor, preferiu o amigo recolher-se a um encolher de ombros, nada, impressão minha, e soprar para longe o fumo e a conversa. Era Verão e sufocava-se na sala de mais um aniversário, adultos  exasperados com as incursões dos mais novos, uma horda borbulhante que atroava de gritos o ar quente num sobe e desce, entra e sai que parecia um carrossel sem freios, olha que eu te quero aqui para soprar as velas da tua irmã, mas já a visada sumia de ombros desdenhosos a caminho de outro destino.

No quarto ao fundo do corredor, Carlota tinha acabado de se despir sob as ordens de Luísa, a mais nova. Fica com as pernas abertas, Carlota, e estica-te para trás. E abria a janela, jorro de luz a incidir sobre corpo, cenário preparado. Podias bem deixar-me escolhê-los. Se te portares sempre bem, um dia deixo, fizeste tudo o que te disse? Tudo, e foi fácil. É sempre. Nem sempre, todos resistem, uns mais do que outros. Têm medo, têm medo do pai. Um dia deixamos o pai descobrir? Deixamos, se te portares bem, deixamos.

A perversidade é um gato. Enrola-se e arranha, espreita. Brota do imprevisível para se aninhar no lado escuro das almas, senhor da casa.

Luísa olhou o fio de esperma que escorria de dentro da irmã e ia formado no chão um pequeno charco nacarado onde dava agora a luz. Saltou do parapeito da janela onde tinha estado sentada e com as mãos elásticas alinhou os cabelos de pequena górgona, vá, Carlota, anda lá, vai lavar-te, temos de ir soprar as velas.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

8 respostas a O gato e a alma

  1. adelia riès diz:

    Gostei muito.

  2. Houve um momento em que me parecia que ia tudo muito compostinho, a dissonâncias agustinianas, mas de repente, acho que o gato deixou por ali uma boca sem língua. Olhe, Ivone, bom aniversário às meninas.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Para já, não me venha com essa das dissonâncias agustinianas porque é um valente exagero que eu não mereço e depois, meu querido Manuel, há almas onde há gato. E eles saltam.

  3. nanovp diz:

    Mas afinal quem manda é a mais nova não é? E a má fama fica para a mais velha e para o Gato….

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Sim, Bernardo, quem manda é a mais nova, mas olhe que entre elas todas viesse o gato e escolhesse …

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Relações, ralações, imbróglio perfeito.

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