O mar silencioso e quieto

 

Os meus domingos, nesses melhores anos dos Moody Blues, não tinham a preguiçosa televisão deste Lazy Day, tão crítico. Não havia televisão em Angola, só havia mar e mar.

O suave psicadelismo do álbum onde estava esta canção, o In the Threshold of a Dream (que ouvíamos quando decidíamos que já era de mais o rasgado rock do Who’s Next), animava as idas de Luanda até uma praia preguiçosíssima, quase vazia – meia dúzia de casas apenas – a 36 quilómetros de Luanda, a caminho da foz do rio Kwanza. A estrada, como a do Hitchcock dos Pássaros,  que vai para Bodega Bay, bordejava a costa. O carro deslizava quase sozinho, um verde elegante a flutuar numa fita de alcatrão. Nós olhávamos, ouvíamos, e a natureza entrava e saía de nós numa harmonia absoluta. O mar silencioso e quieto, o kayak com que íamos pelos mangais, o sol a arder, uma mão caída como faca na água.

Tínhamos tudo nas mãos, uma esplêndida felicidade, uma luz nítida, geométrica, a recortar o Morro dos Veados, o azul e inumano infinito de água e céu. Tínhamos tudo na mão, tínhamos pena até da angústia, das pequenas misérias de Deus.

luis gaspar

foto de Luis Gaspar

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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5 respostas a O mar silencioso e quieto

  1. ana moreira diz:

    Quanta saudade revela o seu texto. É aquela saudade que só se dá a quem se deu. Obrigada Manuel!

  2. Que linda harmonia. É uma daquelas alturas em que mundo está no lugar certo e nossa presença nele também?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Cântico à vida e ao fluir do tempo. A referência à cena dos “Pássaros” esteve tão bem que de hoje não passa o meu regresso a este Hit­ch­cock.

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