O porco selvagem do HH* lembrou-me

024Matei uma porca, uma vez . Eu, o Henrique, o Carlos e o pai do Carlos matámos uma porca à beira da estrada numa sexta-feira soalheira e fria de Novembro. Parece que foi há muito tempo, talvez por ter sido antes do Facebook, do You Tube e do Iphone, mas foi há menos de dez anos. Felizmente ninguém filmou, ou fotografou ou postou a matança no timeline como agora se faz a cada soluço que se tem. Seria de mau gosto e cruel, mas matá-la não foi.
Toda a gente devia matar uma vez. Matar um animal grande, forte e cheio de sangue. É a única maneira de sentir o que é a vida. Sentir com o corpo, com as mãos, com os braços, com o nariz e com os ouvidos porque senti-la mediada pelo pensamento não é sentir é só entender.
A porca tinha-a comprado e entregue ao Valentim para a engorda. Contava fazer uma festa quando se erguesse o pau-de-fileira na casa que estava a construir. É uma coisa antiga, a festa do pau-de-fileira, uma festa que era costume fazer-se com os carpinteiros, os pedreiros e o dono da obra quando se erguia o dito pau que é a trave que fica no cume da casa, a cumeeira; quando finalmente se completa o esqueleto e a casa começa a parecer-se com uma casa. Eu queria fazer uma festa rija com o porco, tinto e amigos. E fiz.

Disse-me o Valentim, quando cheguei, que a porca, que tinha sido calma até então, guinchara o dia todo como que tendo premonição da sua sorte. Bichos magníficos os porcos. Mais espertos que cães, intuitivos, com um cérebro grande e omnívoros como nós. A porca sabia, talvez pelos olhares do Valentim, ou porque era dotada de percepção extra sensorial, que ia morrer nesse dia.
Dos quatro, o pai do Carlos, criador e executor de porcos, era o especialista. O conhecimento que tinha da anatomia dos bichos, fossem porcos, cabras ou ovelhas e a mestria de cirurgião com que abriu a porca, a limpou e a separou em partes, fez-me sentir inepto e afectadamente urbano. Nós, os outros três, ajudámos. Tirámos a porca da pocilga, atámo-la, levámo-la para a beira da estrada, que ficava perto da pocilga, virámo-la de patas ao alto e segurámo-la com firmeza enquanto o pai do Carlos, com a faca afiada, lhe deu o golpe por cima da mão esquerda que é onde fica a artéria que traz o sangue do coração. E a vida da porca jorrou em soluços sangrentos pelo corte certeiro e escorreu pela beira da estrada até fazer uma poça coalhada e fumegante lá mais a baixo.
A força da porca era imensa, do tamanho da sua dor e do seu desespero, um desespero grunhido e ouvido em todo o vale. Concentrados na tarefa, nós agarrámo-la com todas as nossas forças e em nenhum momento ela se soltou; até se acalmar de tão morta que estava. Depois queimámos o pelo com uns maçaricos. Um fedor indescritível.

Matar é uma experiência única. Nada se lhe compara. A não ser talvez dar à luz mas para isso não estou equipado. Agarrar um bicho tão grande e sentir no nosso corpo os espasmos da vida que se esvai foi uma sensação que nunca esquecerei. Matar foi a experiência mais humana que me lembro de ter tido.
No dia seguinte, durante todo o dia, assámos as febras da porca nas brasas que ardiam em meios barris enterrados no chão e comêmo-la; bêbados de tinto e medronho.

* Herberto Helder, no segundo parágrafo do “Servidões”

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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5 respostas a O porco selvagem do HH* lembrou-me

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Sublime.

  2. Pedro Bidarra diz:

    Sublime experiência. E saborosa no fim

  3. Olinda diz:

    deste à luz a morte – com sangue e tudo. em que achas que a porca pensou durante o parto?

    (vê, por favor, quinto parágrafo, sexta linha, verbo trazer)

    • Pedro Bidarra diz:

      Não pensou em nada. Nenhum bicho pensa em nada com a dor e o sofrimento. A dor, a grande dor, interrompe qualquer pensamento, não dá espaço para mais nada a não ser ela própria. Nem é preciso ser grande. Basta um bom beliscão para interromper qualquer pensamento

  4. Olinda diz:

    acabei de escrever assim a propósito da tua excelente resposta: a obesidade da dor que matou a porca. porque é preciso querer muito não pensar para matar.

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