O Rei Sol e o Caracolinhos, a Fada

A minha irmã não é apenas uma boa irmã. É uma fera da incompreensão pedagógica nas suas vertentes mais mitolailai-religiosas. Conto tudo. Não sou de intrigas. Mas conto.

Tem dois filhos, a fera, perdão, a mana. Um anjinho e um diabinho. No entanto, o anjinho, aquele que ainda não diz os érres, é de idiossincrasias, há que reconhecê-lo. E desde o  berço, praticamente. Exemplifico. Ao passar por um lugar onde encontrou algo belo aos seus olhos:
– Ó que bonito. E que pena, tudo destruído. Veio uma onda preta e… tudo destruído.
Tudo destruído e muito bem elaborado. Érres para quê? Gosta Bach há anos. E convenhamos, ele tem pouquíssimos. Gosta se for o Glenn Gould. De Mozart. E, vá, das marchas de Strauss. Não me preocupa porque gosta igualmente da música do Porco Fino. Tem o vício do simulador de aviões. É de uma gratidão sobrenatural e doce:
– Obrigado, mãe, por me acordar para este lindo dia de sol/ lindo dia de chuva.
– Obrigado pela yoga, Tatia.
– Obrigado, pai, pela nossa Cuca – o irmão mais novo.
– Adoro-te Cuca, agora larga o meu avião.
Há outros detalhes, como direi, de proporção interessante:
– O que gostava de presente de aniversário?
– Um Monarch.
Lá se descobre um avião da Monarch online.
– Que belo avião. Obrigado. Quando podemos ir ao aeroporto ver o nosso Monarch verdadeiro?
– Não querido, é só este.
– Não faz mal. É muito bom este monarchquezinho. Depois compro a Monarch.
Todavia, o futuro dono da Monarch, desde que é uma mínima criatura, e até hoje, não limpa a própria boca, não assoa o próprio nariz. Não se veste sozinho. Embora tenha de estar impecavelmente limpo. O que faz?
– Alguém limpe a minha boca, por favor…
– Alguém assoe o meu nariz, por favor…
– Alguém me dê a comida à boca, por favor…
– Alguém mude a minha camisa, por favor…
Alguém. Ora, hoje resolvi aproveitar o Alguém que me calhou. Pedagogicamente. Eu para ele, à homem, tu cá tu lá, não há meninos:
– Começo a convencer-me de que és a encarnação do Rei Sol!
Ele para mim:
– Encarnação?
Eu para ele:
– Sim. Onde nós estávamos antes de nascermos. Como tu não limpas o nariz, o teu próprio nariz, acho que eras o Rei Sol.
Ele para mim:
– Porque o sol é o rei do céu? Antes de nascermos estávamos no sol? Uau!
Eu para ele:
– Não. O Rei Sol era o rei de França. Da Disney de Paris. E não se vestia sozinho. Nem assoava o próprio nariz. Mas até ele comia sozinho.
Ele para mim:
– Ó… Coitado de mim quando era rei.
A incompreensiva para mim:
– Cuidado que estou a ouvir tudo…

O outro, a Cuca, a coisa pequena de velocidade atómica, se não se mete um turbo  para chegar ao pé dele quando espirra, já limpou o nariz ao braço. É de tal calibre que ainda nem fala ainda e já tem cognome: Caracolinhos, a Fada – por causa do Lobo Mau disfarçado à porta dos três porquinhos, de cabeleira loura, em cachinhos como os dele, e tão angelical quanto ele.

Moral da história: porque é que nascemos molhados? Não, não é daquela bodegada toda, perdão, daquela poética aminiótica toda, não é. É por termos atravessado o rio do esquecimento, ainda que esteja mais que visto que nem todos mergulhamos fundo. E o que é, enfim, a genética comparada com o karma? Areia miúda, filhos, areia miúda no fundo do rio… Aprendei que não duro sempre. E amanhã digo outra coisa qualquer.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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9 respostas a O Rei Sol e o Caracolinhos, a Fada

  1. riVta diz:

    tomoró is anada dae
    gud

  2. António Barreto diz:

    “É por ter­mos atra­ves­sado o rio do esque­ci­mento, ainda que esteja mais que visto que nem todos mer­gu­lha­mos fundo.”

    É linda a prosa, mas o destaque…é “munta fruta”! Fantástico!

  3. Ivone Mendes da Silva diz:

    Ó Eugénia, só lhe digo que este seu sobrinho é uma inspiração …

  4. Confesse lá, são os sobrinhos que lhe escrevem metade dos posts!´”Alguém me dê a comida à boca!” É que nem Jesus pediu tanto a Maria ou Marta. Diria, eu sei lá, que há aí uma cultura persa, um hedonismo mandarim, o verdadeiro Império do Meio.
    Ah, e fiquei abismado com a sua requintada vocação pedagógica. ònha querida professora Emília, assim sim, eu teria aprendido Richelieu e Colbert!

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