Pedro Bidarra, uma boa ideia de Deus

7 criacao do mundo

Ontem vi o Pedro Bidarra na SIC Notícias, num programa sobre ideias, a dizer que a melhor ideia do homem tinha sido Deus. Tem piada, mas está enganado. Deus não é uma ideia, pode quando muito ser um conceito. Mas, ainda que fosse um conceito, não seria nunca o resultado de uma ideia.

Caro Pedro, uma ideia foi a invenção da máquina a vapor; ou do arado ou até da agricultura.

Conceitos são a Verdade, a Honradez, ou a Justiça. Penso que nisto estaremos de acordo. Mas a Justiça foi uma ideia? E a Verdade, não passa de uma ideia? Não creio (a crença é outro conceito).

Poderemos discutir – tu que te assumiste naquele programa como ateu e eu que sou crente – até ao infinito se Deus existe em Si ou se é uma construção social. Eu entendo que existe em Si, tu defenderás que é uma construção social. Só que, tal como a Justiça, a Verdade, a Honra ou a Liberdade são conceitos inatos (já lá vou), Deus a ser apenas um conceito é, igualmente, inato. Ou seja, se for uma construção social é uma construção social natural – como a família (que também não foi ideia de ninguém) – e não uma simples ideia do tipo “Penso, logo existo” de Descartes, ou “”A história de toda a sociedade até aos nossos dias nada mais é do que a história da luta de classes”, de Karl Marx, ou a “Perpétua virgindade de Maria” que Santo Inácio de Antioquia ensinava no longínquo ano de 107.

Conceito inato é aquele que é condição absolutamente necessária à organização social espontânea dos seres humanos. Não me parece ser o caso da virgindade de Maria ou do postulado de Descartes. Mas já o conceito de família ou de Deus (dando de barato que Deus é uma construção) foram (são) absolutamente indispensáveis à nossa organização e desenvolvimento, incluindo ateus e crentes.

E eis o paradoxo – se os seres humanos jamais se organizariam como o são sem conceitos inatos como a família ou Deus, estes terão, obrigatoriamente de ser conceitos naturais, ou se quiseres pré-conceitos. E não colocados na categoria das ideias que os homens tiveram para melhor se organizarem socialmente.

Isto é picuinhas, e como estou farto de dizer, é banal. Mas faz uma diferença do caraças, caro Pedro.

E tenho quase a certeza de que tu, sim, és uma das melhores ideias de Deus…

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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27 respostas a Pedro Bidarra, uma boa ideia de Deus

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei muito e a mim – que acho ser Deus uma prodigiosa criação humana (e Ele bem podia agradecer-nos, de vez em quando!), e que também acho que a Ideia é o Conceito – parece-me que Deus é um arado e a Humanidade o seu latifúndio.

    • Henrique Monteiro diz:

      O que é admirável, Manel, é parecer-te tudo mal. Ao contrario.

      • Tens razão, Henrique, fiz burrice ali em cima. Mas estás enganado, não me pareceu nada Mal, pareceu-me tudo Bem.
        Explico-me: estou de acordo contigo quanto à indispensabilidade de Deus para a nossa organização psicológica e social. E estou tanto mais de acordo contigo quanto, para isso, é indiferente que Deus seja uma arrojada criação humana ou seja o putativo Criador que nos arrancou do Nada, sendo que, no meu agnosticismo, Deus é, até prova em contrário uma criação humana.
        Dito isto, acho que um post como o teu, por mais que os meus caminhos sejam diferentes do teus para chegar à mesma conclusão, uma das razões pelas quais escrever é mesmo triste.

        • Henrique Monteiro diz:

          Caro Mestre, ali em cima o meu intuito, ao responder-te, foi embirrar com agnósticos. Brevemente tentarei provar a impossibilidade do agnosticismo, que não a da indiferença. E merci pelo cumprimento

  2. Bruto da Silva diz:

    E se Deus for apenas uma constatação humana ao reconhecer a sua incapacidade de O entender – ou de entender o Mistério (infinito) que o inclui (e que o rodeia) ?

  3. Ó Manuel Fonseca, já não bastava a reforma agrária, agora a reforma agro-divina?!

    • Menina Eugénia, eu sou um camponês inato… Mas se não se quiser meter na agrícola, a filosofia vai-lhe muito bem. Deus não é mesmo, como diz, um conceito ou ideia inata: Um conceito inato é do tipo “iguais somados a iguais geram iguais”. Ou seja, este blog é uma ideia inata.

  4. «Lux naturalis in homine» Henrique, texto magnifico. O trigo foi separado do Joio. Vivam os gregos, vivam os Troianos.

  5. Há tanto tempo que eu não pensava em Deus como construção, ideia, conceito ou criação fora de mim. O medo que não tenho em encontrá-lo faz-me acreditar que a existir Ele anda dentro de mim.

    • Henrique Monteiro diz:

      É o cartesianismo, querida Rita, essa malvada teoria que faz depender Deus daquilo em que cada um acredita. O homem tanto se esforçou contra o cepticismo que criou uma legião de gente que se acha criadora do divino…

  6. Ivone Mendes da Silva diz:

    Que o Pedro Bidarra é uma excelente ideia de Deus, disso não há como duvidar. Belo texto, Henrique.

  7. Isabel Zambujal diz:

    Mais um texto abençoado.

  8. Pedro Bidarra diz:

    Caro henrique só agora aqui cheguei. Vou ter que ler melhor. Já volto.

  9. Pedro Bidarra diz:

    ideia, representação mental de algo concreto, abstrato ou quimérico (de uma pedra, do belo, ou de um cavalo alado).
    No Houaiss
    Era este tipo de ideia.
    Mas já volto

  10. Pedro Bidarra diz:

    Uma ideia inata? Assim uma espécie de instinto conceptual?

    • Henrique Monteiro diz:

      Não um instinto. Uma precedência cognitiva, algo que se não existisse no hominideo ele jamais passaria a homem. Um bipedismo intelectual…

      • Pedro Bidarra diz:

        Podes dar-lhe o nome que quiseres, mas do que falas é do mesma natureza do instinto, comportamentos que já estão escritos na nossa maneira de ser, do nosso script, Mesmo esses foram aprendidos e, porque uteis, foram inscritos como comportamentos no organismo.
        Seguindo a tua ideia poder-se-á dizer que a ideia de deus, porque útil à sobrevivência, ter-se-á inscrito no DNA. Um instinto, portanto.
        Mas não creio.Creio antes que é um principios explicativos do mundo e das coisas que tem estado no “DNA” das comunidades hominideas e que nasceu com a capacidade de comunicar verbalmente e de representar o mundo através de abstracções. Os conceitos, ou ideias, passam-se e aprendem-se e evoluem. Assim terá nascido deus.
        Mas que sei eu. Nem é assunto, a bem dizer, que me tome muito tempo e reflexão.
        Quando me perguntaram qual era a melhor invenção pensei nos “Óculos”, mas como já alguém tinha dito antes de mim, lembrei-me de Deus. Essa sim a maior de todas as invenções.

  11. ferdin diz:

    a consciência …na sua construção milenar…e onde ficará a causa de tudo isto….da solidão da alma?
    Li …..reli…estudei…amei….e até cri…..mas olha pequena suja…..come chocolates!!!….a metafísica existe no horizonte para onde desterraram a verdade…..come chocolates…e fica na doçura que demora na tua boca….

  12. Olinda diz:

    resumindo: Deus não é coisa de ideiotas mas os ideiotas são coisa de Deus, Henrique? 🙂

  13. nanovp diz:

    Pois tenho de concordar: Deus não é uma ideia do Homem. A Humanidade sim é o centro do”cosmos”, esse grande projecto idealizado por Deus.

    • Bruto da Silva diz:

      Agora fico eu baralhado: como pode um humano atrever-se a identificar “esse grande projecto idealizado por Deus”. Ai se o Espinoza sabe disto… 😉

      “Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas — pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino. Este homem, do seu pedestal de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e por todos os tempos o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Foi quem teve a mais profunda visão de Deus”

    • Henrique Monteiro diz:

      Très bien!

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