Portukill #1 – Dois Apaches

Battaglia di dieci uomini nudi   Antonio del Pollaiolo, circa 1460-1465

Battaglia di dieci uomini nudi
Antonio del Pollaiolo, circa 1460-1465

“All men dream, but not equally. Those who dream by night in the dusty recesses of their minds, wake in the day to find that it was vanity: but the dreamers of the day are dangerous men, for they may act on their dreams with open eyes, to make them possible.”

T. E. Lawrence

Corro quase de gatas pela vala molhada de uma estrada de campo. O som da gravilha húmida debaixo das minhas botas ecoa por todo o vale como se nos encontrássemos no fundo de um enorme almofariz de alabastro onde um gigante cruel e impiedoso tritura rumorosamente os nossos duros e lusos crânios de pedra. A Lua, gélida, lá em cima, lembra uma assimétrica raspa de osso, lascada à pressa com um punhal de combate e atirada para o chão negro de um céu sem estrelas. Apoiados nas suas G3 de gelo vislumbro os meus camaradas acocorados ao longo da estrada como que numa fila de gárgulas rasteiros caídos de uma qualquer catedral invisível. Passando por eles e chegado à cabeça da coluna já a passo de homem, atiro-me exausto de borco para uma fossa inundada de uma lama fria e putrefacta. Do outro lado da estrada, envolto na penumbra do pinhal, o Castro lança-me um assobio em surdina e com a palma da mão estendida, indica-me que os gajos estão escondidos uns dez metros à nossa frente. Depois, com os dedos em W indica ainda que são três, os cabrões. Soldados da milícia, percebo ao vê-lo passar a mão pelo ombro direito demonstrando-me que é raso, que os gajos não têm insígnias. Creio que façam parte do corpo especial de espanhóis que como chacais de tiro nos seguem há já alguns dias. Vejo-os agora nitidamente através de uma folhagem espessa de fetos ossudos e corcundas, em torno a uma AK47 montada num tripé e apontada para a estrada como uma aranha metálica e venenosa á espera de um motivo de digestão. Como crianças mal preparadas que são, escondem-se pouco e têm duas lanternas acesas que inundam de uma electricidade opaca a folhagem quase pré-histórica que os circunda. Para combater o frio estão com certeza a beber algo que pilharam numa aldeia das redondezas e como já o devem estar a fazer há um bom bocado, produzem um cagarim embriagado que se deve ouvir do outro lado do pinhal. No chão, escuros e fumegantes, dois vultos manchados de pêlo, cães com certeza, abatidos alguns instantes antes e que com afinco um dos espanhóis parece esfolar com um punhal.

Esta é a primeira noite sem chuva desde que deixámos Tomar à dois dias atrás. Aí tínhamos chegado num já bastante reduzido grupo de homens pela guia incerta de um esfarrapado batedor Alentejano que encontráramos pela estrada e que nos convencera que no centro da cidade se instalara um nosso comando com munições e algumas rações de combate. À chegada, quase com indiferença, descobrimos que nos mentia, que provavelmente nos queria atirar para uma emboscada, que da cidade não restava praticamente nada e que teríamos que voltar a partir imediatamente. Traços profundos de carros de combate cruzavam a lama que cobria grossa quase todas as estradas e ruas da cidade. Passamos uma praça que fumegava ainda de metralha e de shellings de obus. De algumas janelas em movimento percebia-se que alguns tinham decidido ficar para tudo poder relatar um dia a um deus que dali parecia ter-se definitivamente alheado. Reconhecemos nos estragos, o estilo e o método daqueles que combatemos. Ao chegarmos ao centro, vimos uma jovem mulher que vagueava nua pela margem do Nabão gritando estrídula o nome do seu homem. Tiritava de frio mas caminhava decidida pelo meio de dezenas de corpos de homens e rapaziada nova, que empilhados pelas margens escorregadias, cabeças perfuradas e pescoços lancetados, transformavam o rio, que nesta altura do ano está cheio até à borda, numa enorme veia aberta, que serpenteava um espesso vermelho pompeia pelo coração aberto da cidade deserta. Deixámo-la ali no seu afazer e seguimos lestos para o lado oposto da cidade. Aí, sem que tivéssemos percebido exactamente o porquê das suas inúteis intenções de engano, mas sem tempo para conjecturas, entregamos o batedor Alentejano aos dois angolanos que seguem connosco desde que partimos da Guarda umas semanas antes. Com a perícia e a rapidez da prática, enterraram-lhe uma cana através dos tendões dos dois calcanhares, fizeram passar uma corda sobre o ramo de um enorme castanheiro e içaram-no pela cana á laia de baloiço, de cabeça para baixo. Nos últimos meses desenvolvi a capacidade de só ver e ouvir aquilo que quero e observei por isso com uma baça indiferença a boca silenciosa do oscilante Alentejano que num esgar invertido se abria e fechava ao ritmo compassado da sua agonia. Já a caminho e embalado pelo ritmo da passada dos homens, oiço o relato alegre do Angolano que ao Alentejano havia cortado as mãos, as orelhas e o pénis para lhe acender depois por debaixo, como que para lhe dar algum conforto, um fogo e um fumo de pneus e outros desperdícios. Mais que Angolanos parecem Apaches estes meus irmãos de armas, quer na técnica quer na usança de matar.

Por outros dois dias, debaixo de uma chuva persistente tínhamos assim continuado, para aqui, para o Oeste, em direcção ao mar e a esta poça de lama onde me encontro agora enfiado até ao pescoço. Volto a olhar para o Castro que por sua vez olha para o mapa que tem na mão. Faz-me um sinal que indica um largo movimento circular em direcção a norte, para os lados da Serra de Aire. Embora se encontre a uns quatro metros de mim e tenha a face coberta de cinza, noto-lhe no olhar um brilho febril, sedento. Demoníaco. Atravesso a estrada e ajoelho-me à sua beira. O cheiro das orelhas humanas que num ramalhete compacto traz pendurado no cinturão chega-me acre às narinas. Assim secas parecem um ingrediente de uma macabra preparação culinária mas na realidade são apenas um seu legítimo troféu de carne. Bastante mais novo do que eu nunca lhe perguntei o que fazia antes de tudo isto e por sorte, ou por simples falta de curiosidade, ele também nunca o fez comigo. Suspeito que com o seu morno sotaque Lisboeta fosse um tipo gentil, de hábitos urbanos, à vontade com modos pacatos de bancário ou de agente de seguros. Vejo-o limpar com a coxa do polegar o suor espesso e empoeirado que sob o luar lhe perlava de luz a escuridão de um semblante sombrio. Então? E esses três aí? Passam alguns segundos antes de perceber que se refere aos espanhóis da AK47. À lamina. Respondo seco. Não me faças ouvir tiros esta noite, por favor.

(Con­ti­nua…)

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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6 respostas a Portukill #1 – Dois Apaches

  1. António Barreto diz:

    Sejamos então homens perigosos. Não sei se percebi bem o resto, mas gostei; ficaram algumas pistas no ar, sugerindo novas demandas.

  2. Bruto da Silva diz:

    Então que continue, tristemente, sem demora nem hesitações… Gostei!

  3. nanovp diz:

    Um “Apocalipse Now” em Tomar a roçar o “gore” Vasco… curioso em ver a continuação…

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Lido este e o 2 continuo a pensar que neste caso mais e mais não é demais.

  5. Bem escrito: à lâmina.

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