Portukill #2 – O Genovês

 

Roman_and_Germanic_Armies_Battle

Deixamos para trás três poças de sangue espanhol. Antes de partir revistei os corpos ainda quentes. Recolhi alguns cigarros e para minha surpresa encontrei dobradas no bolso da camisa de um deles duas folhas de papel branco em relativo bom estado. É cada vez mais difícil encontrar papel. Talvez mais tarde escreva algumas linhas, estas linhas que, na vazia ausência de um destinatário, escrevo sempre menos. A carne, que era mesmo de dois grandes cães, depois de esfolada foi enrolada num pano de tenda e metida no fundo da mochila do Corso, um Genovês de poucas palavras que nos tinha ficado de um dos contingentes iniciais. Nas pegadas que deixamos na terra molhada, os sangues ainda fluidos de espanhóis e de cães fundem-se num só para depois capilarmente aderirem ao emaranhado de carumas que cobre o chão do pinhal, formando num reflexo de óxido metálico, uma linha de caracteres, que numa língua que creio há muito esquecida escreve a curta e recente história dos meus pecados.

 Atravessamos agora um terreno mais ondulado e pedregoso de vilas e aldeolas desertas. Depois de circundar a Serra de Aire, passar Porto de Mós e inflectir de novo para Oeste na direcção da Marinha Grande, entramos numa quinta por onde deambulam meios cegos de fome, alguns animais vivos. Decidimos repousar por algumas horas. Nas traseiras de uma vacaria, encontramos um pequeno porco macilento mas relativamente são que, com a outra carne que trazíamos connosco, assamos num fogo discreto e que as carnes secas comemos com um gosto de que já não havia memória, sobretudo nas memórias de todos aqueles rostos untos de uma gordura mais humana que suína. Observo estes vultos sentados comigo à volta do fogo. Com os olhos brilhantes e febris, comemos curvados como que esmagados pelo peso de grandes e invisíveis asas de osso. Parecemos velhos anjos cansados, consumidos pela implosão de um mundo que deixou de existir, do qual fizemos parte num outro compasso de tempo e que por uma desatenção quase infantil ajudámos a reduzir a pó. E fechando depois as pálpebras sinto e oiço que todos estes olhos, de que as pupilas parecem ser apenas a cabeça do prego que os mantêm fixos nas órbitas do crânio, cantam em uníssono uma triste sinfonia de fundos de alma, reflectindo juntos o vermelho do fogo de novo contra o fogo, potenciando um acusatório dedo de luz que hasteado na noite aponta às cegas para um espaço, um tempo e um Deus, que imensos e mudos o ignoram num silêncio desinteressado e sem escrúpulo. Chegado o amanhecer e com ele de novo uma chuva miúda e fria, voltamos a partir. Os dois Angolanos desapareceram durante a noite depois de uma discussão acesa com o Corso. Mando um homem bater o terreno em redor da quinta mas perante o olhar sereno e definitivo do Genovês decido que é inútil e que o melhor é continuar em frente sem os Africanos. Se por ventura chegasse a Lisboa vivo e contra todas as probabilidades aí chegassem eles também, poder-me-iam ser seguramente úteis, estes dois selvagens. Mas tudo isto são conjecturas inúteis pois eu sei já que dos dois Africanos nada resta e que eu mesmo não andarei muito mais longe. Sei que o peso das minhas asas de osso não mo permitirá e que não tenho já a força necessária para seguir até Lisboa e enfrentar o que lá se espera de mim.

 Chegamos à Marinha Grande já de noite. Seguimos até ao centro silenciosamente e sem incidentes e tal como esperávamos, naquilo que teria sido até há pouco tempo um tranquilo parque citadino, estão instalados à volta de meia dúzia de fogos, os restos de algumas tropas do nosso contingente internacional que dispersadas durante as últimas semanas se vieram aqui reunir. As construções em redor apresentam o mesmo rosto de destruição que pude observar por todo o lado desde que entrei no país há cerca de quatro semanas. A limpeza da região Centro fora feita uns meses antes e da população da cidade não há naturalmente vestígio. O método sempre o mesmo. Mulheres e crianças evacuadas para os campos do norte para lá da fronteira espanhola e o resto, homens e jovens em idade de combater, expedidos directamente para um sono de lama e de cal. O Castro decide fazer uma ronda com dois dos seus fiéis esperando encontrar por entre as tropas aqui estacionadas algumas munições e comida e perceber com poderemos continuar para o Sul, em direcção a Lisboa. Sento-me num banco de jardim, pouso a minha arma sobre os joelhos e fecho os olhos. Com a palma da mão sinto os contornos frios da culatra. Os únicos contornos que a ponta dos meus dedos carcomidos ainda reconhecem. Sei já onde acaba a minha estrada. Ao voltar a abrir os olhos apercebo-me que o Corso se sentou ao meu lado. So già che tu non vieni con noi, dispara em Italiano sem me olhar. Estendo-lhe o último cigarro dos espanhóis que me resta. O seu perfil adunco recortado pela luz de uma fogueira ao longe não mostra qualquer expectativa de uma resposta. Estendo-lhe o isqueiro aceso sem o olhar. Non sono mai stato a Lisboa. Profere com solenidade. Mi dicono che é una bella cittá. Che ricorda la mia, quella di Génova. Faz uma pausa para deixar sair pelo nariz uma nuvem de fumo. Quando ce n´era ancora qualcosa da vedere, voglio dire. Olho para as minhas unhas sujas e lascadas. Dizem-te bem Corso. Vais gostar. É a mais bela cidade do mundo. Olha agora para mim sem sorrir mas com um ligeiro brilho nos olhos. E cosa mi consigli di fare li? Pobre Corso. Uma Ginjinha Corso! Tens de ir beber uma Ginjinha aos Restauradores. E não te esqueças de beber uma por mim.

 O Castro voltou de mãos vazias mas miraculosamente descobriu numa garagem fechada um velho Mercedes ainda em bom estado e com o depósito meio cheio que segundo ele é suficiente para nos fazer chegar aos arredores de Lisboa. O grande sorriso que rasga de branco o seu rosto de fuligem fá-lo parecer agora uma criança rabina precocemente envelhecida. Um sorriso que se desvanece numa linha recta de lábios quando lhe explico que não sigo com eles, que fico por aqui, e que por demais não gosto de andar de Mercedes, que quando era miúdo o cheiro dos estofos em pele me davam dor de cabeça e me faziam enjoar. Fazemos uma longa pausa olhos nos olhos. Uma estridente tempestade vermelha de quatro semanas de fogo e lama e sangue passa por entre nós para depois de repente se amainar, sem cerimónias com o virar lento das costas do Castro.

(Continua…)

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.

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8 respostas a Portukill #2 – O Genovês

  1. adelia riès diz:

    Gostei 🙂 🙂

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    E agora torna-se difícil a espera por mais.

  3. Bruto da Silva diz:

    Depois deste intervalo (em que falta a legenda da chacina?) ansiamos tristemente pela próxima paragem. Força, Vasco!

  4. Não sei se este Genovês algum dia chegará a beber a ginginha

  5. nanovp diz:

    Fico com a sensação de que o Corso vai beber a ginjinha na companhia dos angolanos, e haverá sangue escuro nos Restauradores….

    • vgrilo diz:

      Nunca o sabrei Bernardo. Cá para mim não passou dos Olivais.

      A batalha dos Restauradores fica para a próxima mas daria pano para mangas…

      Abraço!

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