Portukill #3 – Espuma de azul

pinhalO céu limpou e faltam-me agora poucos quilómetros para a praia de São Pedro de Moel. Caminho há cerca de duas horas através do labirinto quadricular que aceiros e arrifes rasgam pelo pinhal. A alça da minha G3 desenha-me uma tira de suor na camisa da farda. À medida que avanço, o cheiro forte e musgoso da urze vai-se misturando gradualmente com um atlântico húmido de maresia. A noite, essa, passou sem sobressaltos nem despedidas. O Mercedes partiu ao amanhecer em direcção a Lisboa e eu fiquei ali na beira da estrada a pensar em como chegar ao meu esconderijo secreto de azul. Por entre os pinheiros, vejo agora a estrada e os primeiros candeeiros de rua da praia de São Pedro. Costumava aqui passar férias em miúdo. Lembro-me de um mar gigante e belo e mau. Lembro-me de um tempo longínquo de tios e tias e primos de açúcar, sisudos avôs de fato e gravata a ler o jornal na areia, de partidas de ténis com bola branca e pó de tijolo e de lusitanos brandos costumes ludicamente praticados à sombra de carnudos pinheiros bravos. Um tempo em que, de contornos frios as minhas mãos percebiam pouco e em que as minhas asas eram ainda todas de vento. Chegado à grande rotunda de ingresso, deparo com a velha estátua do Rei Dom Dinis que jaz agora por terra enlameada, cortado seco pelos pés que nas suas botas reais e no respectivo pedestal ficaram. Como altiva companhia, ao seu lado no pedestal, uma hirta e sempre austera Rainha Santa Isabel parece atentamente velar por qualquer coisa que só ela conhece. Talvez uma luz que algures ainda brilha e que só ela conhece. Ou talvez estivesse só à minha espera quem sabe. Não se vê naturalmente vivalma mas à parte do Rei caído e para minha surpresa tudo parece estar como dantes. Desço a rampa que leva à praia por entre as pequenas casas de pescadores que a enfeitam e depois, passando a velha praça e a sua fonte seca, meto a direito pelo paredão ao longo da praia até lhe chegar ao fundo.

 Caminho agora até ao mar enterrando os pés na areia grossa. Na duna lá mais em cima, despi-me da cor de sangue que me cobre a farda. Ali deixei também a G3 e ainda os ossos das minhas pesadas asas, que sem grande custo arranquei das costas e que como fósseis precoces de uma vida que afinal está para recomeçar, deixo ordenadamente espetados na areia. A névoa fria que se me vem condensar no rosto causa-me um pequeno arrepio de prazer que se amplia à medida que me entrego às ondas frias do Atlântico. È possível que a esta hora o Corso tenha sido abatido por um sniper emboscado enquanto descia a Avenida da Liberdade ou talvez pulverizado por um míssil artesanal atravessando o bairro dos Olivais a bordo do Mercedes que conduzia em direcção ao centro da cidade. Mas creio que não. Quero acreditar que em Lisboa a esta hora, o Corso estará a beber uma ginjinha à minha saúde e a saborear o seu delicioso e super-alcoólico retrogusto. Passada a forte rebentação com algumas braçadas, flutuo agora olhando lá em cima o sol que todo esférico de luz parece um daqueles reluzentes rebuçados de laranja da minha infância que ignorando as leis do universo, sobe pegajoso um vidro de céu sem nuvens. E é tão bom, mas tão bom, poder por fim deixar-me levar, assim sem rumo, nesta doce hipotermia de límpidos reflexos de cor azul.

“The Ocean” – Richard Hawley from “Coles Corner”, 2005 

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.

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8 respostas a Portukill #3 – Espuma de azul

  1. Bruto da Silva diz:

    Já que a série acaba aqui, sem rumo, saia um “retrogusto” 😉

    Se um dia voltar a SPMoel… vou ver se as marcas das asas espetadas na areia ainda se notam…

  2. Bem disse que o Genovês não chegava a beber a ginginha. Só podia, para que tudo acabasse em límpido e infinito azul.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Beberei eu uma ginginha à saude do Genovês. Bela prosa

  4. vgrilo diz:

    O Genovês manda-vos dizer que não senhor, que está vivo e que no meio dos escombros dos Restauradores encontrou uma entrada para uma cave cheia de barricas de Ginginha (com g). Creio que ainda lá esteja escondido á espera de um epílogo que o faça voltar á superficie. Hics!

    • Bruto da Silva diz:

      Está tudo falsificado: as barricas com g devem ter pólvora seca e o Ge no vês vai pelos ares quando furar uma delas 😉

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Apetecível esta espuma!

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