Pós-épico

 

Cada palavra enfrenta o silêncio
com o seu punhal de sílabas afiadas:
sabem todas
que nenhuma vitória se demora
para ser longamente cantada
pelas épicas pretensões
de quem lhes é próximo e regozija
à espera dos despojos
espalhados na areia
ou pelas ruas onde ainda ardem alguns sons.
Dizem-nos que partamos de noite,
dos campos onde foi Tróia,
ao encontro do velho fatum mediterrânico,
pura leviandade dos deuses
que o desenharam rindo,
esquecidos de que a repetição
nem sempre convém aos homens,
muito menos às palavras.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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7 respostas a Pós-épico

  1. Belíssimo, Ivone.

  2. É inescapável o velho fatum mediterrânico: ardem de novo as cidades cheias de som e fúria. A quem convirão os novos despojos?

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