Poucas vezes vi

 

Estou longe de casa. Vi cenas violentas na TV. Gente em Fortaleza, ontem, tentando furar o bloqueio policial no rumo do estádio. O jogo terminou 2×0 para o Brasil. Duas ações quase exceções. Um esplêndido voleio, o primeiro gol. Uma jogadaça pela esquerda, deixou dois zagueiros mexicanos estáticos, pelo caminho. Ambas, claro, obras de Neymar. No sanduíche de tempo entre as duas, nada de mais mirabolante.

Ninguém liga tanto para futebol de momento. Embora, evidente, o futebol não passe em branco. E de repente estamos num país.

Encontro-me na Praça Fausto Cardoso, centro de Aracaju. É quinta-feira, dia 20 de junho, há dois milhões de brasileiros nas ruas neste momento, recebo a informação por smartphone.

Um arrepio percorre a tarde e brinca nos bigodes do sindicalista.

Há dois coretos, os antigos prédios da assembleia e o da prefeitura, agora museus; e, por trás deles, a Catedral de Nossa Senhora da Conceição – também já quase um museu. O fim de tarde é ameno, e estou com duas colegas do departamento. Encontramos muitos alunos. Seus t’s e d’s dissonam dos meus, assim como certas cadência de acento. Eles se divertem em exibir os cartazes coloridos. E os temas recorrem. Os mais jovens trazem o rosto pintado em faixas verde-ouro. Há uma antologia de brincos, piercings, tatuagens e jeans propositadamente esfarrapados. Um grupo que entoa refrões e prega o apartidarismo parece mais orquestrado que todos os demais. Dá a suspeita de que são, na verdade, conduzidos por candidatos a se lançarem nas próximas eleições:

Não à CUT, não ao PT, não aos Sem Terra, não ao PSDB: sem partidos, sem partidos, sem partidos – vociferam.

Cento e cinquenta partidos – entoa um grupo pequeno de anarquistas, num mais genuíno deboche.

Há algo de quermesse, e bandeirolas juninas. Há um grupo gay metido em roupas coloridas e extravagantes. Há punks e a turma mais nerd. Acima, num carro de som, alguém destila chavões políticos já tão puídos. São sindicalistas profissionais, ligados à CUT, e solenemente ignorados.

E, lá, além da praça e da balaustrada, na outra banda do rio, os últimos raios de sol acertam as fachadas ocres e amarelas de Barra dos Coqueiros num quadro de cinema. Enquanto isso, os últimos raios de som nos chegam a prazo, e falam de revolta.

A passeata vai correr as ruas. Mas escolhe seguir na mão inversa da proposta pelo carro de som dos sindicalistas. E estes vociferam para aqueles, que aqueles estão indo para o lado errado. Como se guiados por cegos. Pode ser. Mas não há líderes. Apenas gente tomando um rumo. Pela primeira vez.

Quem sabe.

Distribuíramos algumas câmeras com nossos alunos, como exercício de fotografia. Mas as câmeras não possuem flashes, e marcamos com eles às cinco e meia, para devolução do material, no flanco sul da praça, à sombra esmaecida do antigo edifício da assembléia. Uma, no entanto, não retorna. Alguém tenta contatá-la por telefone. O crepúsculo relâmpago se fez nos trópicos. Ela se encontra no olho do furacão, e evasiva. (Secretamente, a admiro, embora tenha de zelar pelo equipamento, e publicamente censurar-lhe a afoiteza).

Não é difícil figurá-la, jovem, esguia, esquivando-se, câmera à mão, no centro dos protestos que, até aqui, têm transcorrido em relativa paz, nesta tranquila capital da província. Ao modo de uma quermesse cívica, onde, além das bandeirolas juninas, há lugar para todos. E certo arejamento nesta tarde-convescote, como se além da praça houvesse uma pista de turfe a esperar pelo momento em que todos possam cavalgar sem peias, passando da expectativa às rédeas no mesmo plano-sequência. E até se pode comprar pipocas, batatas fritas, cerveja, água-de-coco. Ou perceber quem, de fato, é sem partido no jogo do bicho das tribos. Ou sopra bonito, sem muitos calculados refrões. Como o vento sopra sobre a água. 

As luzes da noite já brilham em Barra dos Coqueiros.

Poucas vezes vi mais bonito este país.

http://nyti.ms/16WxyC0

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
Esta entrada foi publicada em Escrita automática. ligação permanente.

8 respostas a Poucas vezes vi

  1. adelia riès diz:

    Tanta esperança…………..:)

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    SIM!
    …………….:))))

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Nada é mais exaltante do que a multidão que sonha.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    O indivíduo que sonha.
    Seus textos de cinema revistos nas gentis palavras de Prima Eugénia. Mais dádivas que dúvidas. Aqui, ali e alhures; para lembrar da canção.

  5. cc diz:

    Lindo esse país dito assim por você.
    ~CC~

  6. riVta diz:

    primo, foi como se estivesse aí!
    ‘aquele abraço’

  7. nanovp diz:

    Quando assim começa ninguém poderá dizer como acabará….

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Retrato que me encheu as medidas do real, do belo e crítico. Gostei muito.

Os comentários estão fechados.