Servidões, Herberto Helder, de Manuel S. Fonseca

Está Escrito é a única cate­go­ria obri­ga­tó­ria deste Escre­ver é Triste. Todas as sema­nas um dos Tris­tes auto­res do blog cele­bra aqui um livro, um autor, um texto, um poema que o tenha mar­cado indelevelmente.

Manuel Fonseca, este Está Escrito é para si.  Por este texto.  Merci.

Entre mortos e vivos, três ou quatro são os grandes escritores injustiçados que temos. E poetas de excelência, talvez dois, três. Sim, injustiçados. A precisar de Zorro e de um Z que sinalize rasgando na ponta da espada as camisas da gente fina da cultura. Não interessa que meia dúzia de vozes dessas se tenham levantado para os dizer grandes. Fizeram-no à capela, ou, vá, com música de câmara, isto é, ao espelho e para os seus iguais. E têm responsabilidade. Agiram paroquialmente. Há o mundo inteiro à porta e ela não foi transposta. Não se atreva a pensar que isso não tem importância. Por muito que quem escreve, escreva para um leitor, a vocação das palavras é o Verbo. O Verbo. Não outra.

O que é ser crítico literário? A quem se dirige um crítico? As páginas guardadas cheiram a mofo. Um crítico deve cumprir com os livros o mesmo que os apóstolos cumpriram com Cristo. Ou nunca lhe tinha ocorrido que estes, antes, foram judeus frequentadores da sinagoga? E um crítico deve vir para os não leitores de um autor, como a boa-nova veio para os pecadores. O que é uma obra de arte se não for uma revelação? E quem, afinal, tem sede: é quem tem água limpa e abundante? E sim, claro, para iluminar o caminho aos já leitores. O medo, qual é? Ser crucificado? Se há fé na obra, seja ela de Deus ou de papel, ressuscita-se ao terceiro dia. Os não-leitores querem ler. Não sabem o quê. Às vezes, nem sabem como. A iliteracia não diz respeito, apenas, a assinar de cruz. Mas a pensar de cruz.

Um crítico não faz um escritor ou um poeta por unção e poder do seu próprio santo nome. É ridícula a sobredimensão que um suposto crítico assume. Um escritor faz-se a si mesmo ou nunca se fará. Um poeta também. É preciso conhecê-los. Para conhecer é preciso amar. Visceralmente, e até com violência, se for necessário.

Cormac McCarthy é um escritor do mundo. É meu tanto quanto dos americanos. Agustina Bessa-Luís não é. Porquê? Não me responda com questões editoriais, de especiosidade nacional – tretas. O universo de um e de outra são o mesmo: o repositório humano na sua condição e a pretexto suas circunstâncias e particularidades.

Herberto Helder tem a memória poética das línguas todas como só em Babel se ouviram e rompe, nem sei se as páginas se a matéria, com a força da máquina de um comboio que nem Whitman concebeu. E escusa de afirmar as escusas do poeta para a perplexidade  que a sua obra impõe. Não é a dar entrevistas em todo o lugar, a toda a hora, a explicar o que se quis dizer num verso que faz o verso. Esse é o trabalho do intelectual, mostrá-lo é o trabalho do crítico. O ideal é quando os dois são um só amante. A exposição mediática do autor, a omnipresença de um autor, nos jornais, nas revistas, como elemento do júri no concurso de não sei quê, numa leitura performativa de pós-moderna miséria, ou no clube de leitura da não sei quantas com chá e bolinhos, na sessão com vinhos e queijos, na sala de sua casa, no hiper-mercado e na feira do livro, não diz meia pevide sobre o seu trabalho, ainda que diga alguma coisa sobre a sua natureza. Ou Shakespeare estaria arrumado. Camões.

Eu quero saber de Raul Brandão, porra, e ninguém diz a ponta de um corno! Ou melhor, dizem: Escola Secundária Raul Brandão. Está traduzido em quantas línguas?

E traduzido para português, um português viral, mutante em cada língua hospedeira onde se aloje, um português seminal, quem, que crítico, que imprensa, quem se atreve?

Temos um rio adiante. Uma mão vazia, em concha. É só um passo de coragem.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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8 respostas a Servidões, Herberto Helder, de Manuel S. Fonseca

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Que o meu laudatório das Servidões lhe tenha gostado tanto que a faça oferecer-nos este seu post, deixa-me contente, contentíssimo. Estes seu belo e veemente texto, a dizer o quanto nos falta levantar, sustentar, substanciar um cânone português, dando-lhe asas universais, é um texto justo a pedir a justiça de outros textos que façam o romance e a poesia que se escrevem em português pares entre “primos”. Talvez lá cheguemos um dia. Talvez já nem haja literatura.

  2. Bruto da Silva diz:

    É lá com eles… e muito bem!

  3. nanovp diz:

    Resta sempre o escrever, com aqui prova elucidamente este seu texto, directo, claro, que denota e exige o saber ser escritor, que tudo altera, porque tantos não o são…

  4. Gosto muito da imprensa, do papel, revista e jornal. De cronistas daqueles de ficarmos felizes logo por antecipação, amanhã vou ler… E sinto falta disso na nossa imprensa agora. São poucos. Fazem-nos muita falta.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Certeiro, humorado e sentido. Assim, sim.

  6. José Diogo diz:

    O texto é antigo, mas eu só o descobri agora. Não fiquei esclarecido: porquê que a Agustina não é uma escritora tão universal como Corman McCarthy

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