Servidões, Herberto Helder

 

 

Herberto

 

Sempre houve morte na poesia dele, nunca tanta como em “Servidões”. Em 10 páginas de inclassificável prosa, a que se somam outras 98 com 73 poemas, escreve-se um homem e a sua morte.

As 10 páginas de prosa, esses passos em volta antes da convulsa corrida dos poemas, são insistente e desafiadoramente autobiográficas. E, não obstante, estão aquém e além da biografia. “Servidões”, o livro que Herberto Helder acaba de publicar, começa na infância, num relato de perda de inocência que nos prepara para a via-sacra de estações em que o poeta encara, com naturalidade, que a morte esteja agora, soberana e aparentemente sem pressa, a observá-lo. Morte fera e benigna, farta de saber que a presa não lhe fugirá. Que me lembre, só um resignado e estóico poema de Larkin, “Aubade”, nos tinha dado, da morte, esse tão sereno, certo e seguro olhar. Em Herberto, como o carteiro de Larkin, um armazém espera pelo corpo que há-de chegar num saco um pouco maior do que o seu tamanho.

“Servidões” é uma autobiografia, se uma autobiografia não for desfile de acontecimentos. Autobiografia, se uma autobiografia puder ser a visualização e verbalização simultânea do mundo e dos processos que um corpo usa para perceber, receber e reagir a esse mundo.

Na maior parte da arte contemporânea o mundo é vazio. Se não o mundo, a representação dele. O mundo da poesia – e da prosa – de Herberto Helder é um mundo pletórico, cheio de animais, medos e alegrias primitivas, as grandes corolas dos girassóis, basaltos, mênstruo e espumas.

Povoadíssimo de coisas, animais e pessoas, “Servidões”, como a “Poesia Toda” de mais de 50 anos que a precede, é o livro de uma escrita à procura da radical verdade do humano e, como há muito tempo se dizia, da sua condição. No poema de abertura (ou se preferirem na prosa de abertura) o poeta estende um porco selvagem na mesa da cozinha, animal que o poema logo retalha a cutelos e facalhões. Fechamos os olhos – na poesia de Herberto Helder fechamos muitas vezes os olhos – e respiramos, abas das narinas bem abertas: há um odor a barbárie, um saudoso odor a sangue e barbárie em que nos reconhecemos e, por vocação animal, nos revolvemos. É um cheiro que vem da infância, dessa nossa obscura, perdida e funda infância. Cheiro da crueldade orgânica de um miúdo que, sem nojo, mexe no que da vida é visceral. Um cheiro de um entusiasmo descontrolado, o mesmo de uma “criança de cabeça zoológica” que descobre a caleidoscópica e aleatória magia.

É apenas um livro, palavras, a intrincada aridez da gramática, que usa explosivamente a ortografia que, agora, mangas-de-alpaca julgam pertencer-lhes. Só que, como desde “O Amor em Visita”, e como na melhor poesia que já se escreveu, de Villon a Rimbaud, de Rilke a René Char, de Yeats a Dylan Thomas, em “Servidões”, a riqueza verbal, as surpresas semânticas, uma certa prodigalidade metafórica e metonímica, metabolizam as emoções, reinventam e redimensionam o real. A palavra carne é mais do que a palavra carne e os versos enchem-se de incontidos cinco litros de sangue, dez metros de sangue, de mães loucas que nunca deixaram de habitar a obra de Herberto, de um orvalho que prenuncia a última manhã. A abecedária poesia assalta o real, confundindo-se e não se confundindo com ele,.

Enquanto espera a noite, a amarga noite, que há-de vir e há-de desfazer, a memória continua a fazer o seu trabalho e estende-se na cama a saudade da pequena puta deitada. E as palavras de Herberto, que em pó, poeira, poalha aliteram a morte, abrem-se à fêmea oferecendo-lhe outra, diferente, bilabial aliteração: branca, brusca, brava, encarnada. Só Sena e Drummond afloraram assim, em abecedária língua portuguesa, a carne trémula, essa carne em que “eu sei quanto depressa morro”.

Nos versos ou na prosa de Herberto Helder caminhamos entre ritos mágicos e bárbaros. Como se toda a história do humano fosse um poema, “Servidões” é o cálice de uma tradição. Um cálice de sacrifício sangrento e de êxtase, de uma longa insónia de tabu e incesto. Saímos de um torpor antropológico. Os poemas de “Servidões” contam histórias. Remotas e actuais. Histórias ancestrais em que as árvores devoram cadáveres ou a história de um poeta contemporâneo, órfão de Rimbaud, a quem apenas sobra a misericórdia de um tiro na cabeça. Há, houve sempre, uma África a insinuar-se na poesia de Herberto. Neste seu livro, escuta-se a lenda afro-carnívora, a solidão majestática do imbondeiro na interminável estepe. Pressente-se o elogio de uma certa persistência vegetal e, com a escassez de um haiku, as folhas de uma welwitschia escondem “no deserto entre as fornalhas” uma japonesa gota de orvalho.

Servidões” é também um livro à procura da radical verdade do poema e do poeta. Poema e poeta sabem que discorrer sobre o mundo, sobre a sua ordem, é menos do que nomear. Esse conhecimento confere vozes díspares e ambas se escrevem neste livro: uma leveza histriónica, uma angústia monástica. Talvez a alma não exista, mas esse obscuro frémito que nos chega a fazer pensar que a alma existe, está, menos do que nomeado, na pequenina fractura ou ferida que separa o gesto cómico do mestre Zen que tantas vezes é o poema, e a religada e lúcida torrente verbal, “cordão de sangue à volta do pescoço”, que sufoca poema, poeta e leitor.

A escrita de Herberto foi sempre devoradora de tudo, da carne, cama e mundo. Em “Servidões” apodera-se dela, por vezes, uma serenidade romana. Escrevem-se mais  devagar os poemas.  Mas as antigas explosões, a vertigem verbal de “A Máquina Lírica” ou “Antropofagias” regressam ainda, nuas, cruas, sexuais, luminosas, nos 32 versos que, irmãos humanos que depois de mim vivereis, invocam Villon, ou quando, na página 97 e seguintes, tomado por uma dor faulkneriana, no mais orgástico e xamânico momento deste livro, o poema se entrega a um consolo de antes o inferno do que nada, para se cerrar no mais belo post scriptum que já se ofereceu à língua portuguesa: “ meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado.

Este é o poeta, o que devagar tomou o poema em suas mãos e, dando graças, o repartiu dizendo: tomai, e lede todos, fazei isto em memória de mim.

Está Escrito é a única categoria obrigatória deste Escrever é Triste. Todas as semanas um dos Tristes autores do blog celebra aqui um livro, um autor, um texto, um poema que o tenha marcado indelevelmente.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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27 respostas a Servidões, Herberto Helder

  1. Verdfruto diz:

    Comentário, para quê ? É Manuel S. Fonseca no seu melhor, tristemente escrevendo com alegria do grandérrimo HH. Excelentes, ambos.

  2. marie diz:

    Meu Deus…

  3. Rita V diz:

    senhora procura este livro
    promete pagar por ele
    preço justo
    mestre Fonseca
    se tiver algum a mais
    avise
    esta pobre de Cristo

  4. Já lhe tinha dito, no seu outro post, lá em baixo, sobre HH: li tudo o que a nossa imprensa escreveu sobre Servidões. E hoje li o que ontem se publicou na ípsilon pois tinha alguma esperança em António Guerreiro.

    Sei bem que sou chata: é uma das minhas melhores qualidades. Porque estou certa.

    Da mesma maneira que as suas crónicas de cinema no Expresso vieram preencher um vazio na forma de escrever cinema – e disse-lhe isto muitas vezes no falecido ETGM, que deveria voltar a publicá-las -, lhe digo que seria bom para nós, os ainda leitores de jornais e revistas, vê-lo somar a essas crónicas, textos sobre o que lhe desse na bolha, do tamanho que lhe parecesse bem. Como este. Porque veio ocupar um vazio. E porque a sua escrita é um bom argumento a favor da imprensa, e ela, de tão empobrecida, precisa.

    Se é para me responder com gentileza sua e outras coisas que tais, nem me diga nada!

    • Não lhe vou responder com falsas modéstias: acho que sou um belíssimo leitor. Que também se sabe ler a si mesmo. Isto é, em primeiro lugar. Em segundo lugar, não me é indiferente escrever publicamente, na Imprensa. Gosto de o fazer, mas sei bem, de uma experiência de quem escreve nos jornais desde 1981, o quanto, às vezes, isso pode ser limitador. Pelo contrário, um espaço de liberdade, puramente lúdico como o é este “Escrever é triste”, promove o mais alegre desembaraço. Este é um muito bom galho e sinto-me aqui o mais feliz dos macacos. Um chimpanzé, vá lá. Nunca vi um chimpanzé em cima de um imbondeiro, mas ao escrever este texto sobre “Servidões” foi como me senti. E fique a saber que gostei. Ora, há lá coisa mais bonita do que um macaco feliz!!!

  5. Ivone Mendes da Silva diz:

    A Eugénia já disse tudo o que se podia dizer sobre este Está Escrito, o melhor já escrito no Escrever. E mim pode responder com gentilezas, que eu gosto.

  6. rita tormenta diz:

    Ler isto e não ter um “Servidões” ao lado, deve ser quase blasfémia.
    Talvez afogar mágoas nuns passos em volta, atenue a sensação de criança que ficou de fora da brincadeira.

  7. Gostei de ler, doutor.

  8. “Uma vaca cheia de tinta”, está muito boa.

  9. nanovp diz:

    Sem palavras de resposta Manuel….Deixe-se andar por aqui, não vá para lado nenhum, nem mesmo para cima do imbondeiro…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ora, ora Bernardo, também já te vi aos saltos aqui por estes galhos. E isso é que é bom, É este belo imbondeiro dar para 17 belos símios. (Qualquer dia ainda nos chamam “The Blog of the Apes”!)

  10. António Silva diz:

    SERVIDÕES
    “e logo [mo] roubaram,
    logo me perderam o pequeno achado,
    mas ninguém me rouba a alma”.

    As notícias, rapidamente espalhadas ainda antes da edição estar nas bancas, de que não haverá reedições, foi golpe de marketing que transformou o livro em acções apetecíveis para “os mercados”. Parece termos voltado à Idade Média na Idade dos Media?!
    Os abutres já comeram os olhos de Herberto Helder.

  11. Maria do Céu Brojo diz:

    Magistral.

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