Soneto imperfeito da minha rua

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O melhor da minha rua é a sombra das árvores
e a vida despreocupada de uma senhora numa janela ao Sol
Passam carros, mas raramente afinados
porque por hábito toco tudo em si bemol

A senhora, sem preocupações, inclina-se a ouvir-me
e deixa ver o seu franco busto debruçado
quando os carros passam toda ela se contrai
e é nesse momento que eu toco desafinado

As grandes manchas desenhadas pelas sombras das árvores
são invariavelmente a minha inspiração
a senhora despreocupada e ali pendurada – não!

É por isso que o melhor da minha rua é a sombra das árvores
embora eu preferisse o despreocupado busto alcandorado
a vida nunca é como gostamos. E isso é que me traz amargurado

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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4 respostas a Soneto imperfeito da minha rua

  1. António Barreto diz:

    O outro é que dizia: -“ou dentro ou fora, que isto assim não é vida!”

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Na minha rua há um miúdo que tem lições de piano na casa ao lado. O saguão, os jardins do palacete em frente, os carros negros estacionados na rua rua, tudo docemente corrido a si bemol. Thanks Henrique.

  3. Rita V diz:

    «toco tudo em si bemol»
    bela sonoridade

  4. nanovp diz:

    A vida é que às vezes anda desafinada…

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