Um Quarto na Cidade

Começou por ser a “a Nova Casa dos Guardas” numa tradução à letra de “Neue Wache” .

Desenhada em 1816, no centro de Berlin, com pórtico virado para a avenida Unter Der Linden, foi criação do maior arquitecto alemão do Neo-Classicismo, Karl Friedrich Schinkel. Sofreu, como tanto sofreu a cidade, com a queda do exército prussiano, sob as forças de Hitler, com os bombardeamentos aliados, sobrevivendo ainda a ocupação comunista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

 A “Neue Wache”

Agora a sólida construção é um memorial a todas as vítimas, soldados ou não, que pereceram nas guerras, em todas as guerras.

O espaço interior, que se acede a partir de um pórtico composto por dez colunas Dóricas, é amplo, rectilíneo, depurado, e livre de objectos ou quaisquer outros elementos decorativos. No tecto, ao centro é aberto um óculo que deixa a luz entrar, uma luz que se movimenta em silêncio pelo espaço.

O pavimento em cubos de pedra cinzenta que lembram a nossa calçada, é baço, e liga na tonalidade com a pedra que reveste as paredes, lisas, opacas onde não há reflexos. Ao centro foi colocada uma escultura “A Mãe e o Filho” de Kathe Kollwitz. A mãe, todas as mães, que choram a morte do filho, de todos os filhos.

O frio e a neve, o calor e a chuva, cobrem dia após dia mãe e filho, como sinal de um horror que ainda não terminou para muitos.

Por tudo isso não surpreende que, apanhados de surpresa, os olhos se encham de água.

DSC04699DSC04848

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Um Quarto na Cidade

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Veio-me à lembrança a comoção que senti em Oradour-sur-Glane, arredores de Bordéus. Sobre a tragédia, foi escrito:

    “Por esta estrada, num dia de verão de 1944, os soldados vieram. Ninguém vive aqui agora. Eles ficaram por algumas horas. Quando se foram, a comunidade que existia há mil anos, havia morrido. Esta é Oradour-sur-Glane, na França.
    No dia em que os soldados vieram, a população foi reunida. Os homens foram levados para garagens e celeiros, as mulheres e crianças foram conduzidas por esta rua e trancadas dentro desta igreja. Aqui, elas escutaram os tiros que matavam seus homens. Então, elas foram mortas também. Algumas semanas depois, muitos daqueles que cometeram essas mortes, foram também mortos, em batalha.

    Nunca reconstruíram Oradour. As suas ruínas são um memorial. O seu martírio soma-se a milhares e milhares de outros martírios na Polônia, na Rússia, em Burma, na China, em….. um Mundo em Guerra.”

    O documentário “The World at War” conta com a voz de Laurence Olivier e pode ser encontrado no Youtube.

    • nanovp diz:

      Obrigado Céu, vou dar uma olhadela… A descrição é realmente comovente, onde a guerra passa resta o NADA…esse horror da não existência….

  2. Há ali uma desolação comovente. Bem trazido.

  3. Bernardo,
    a minha ignorância desconhecia tudo. Gostei muito de conhecer. Merci.

    • nanovp diz:

      Ainda bem que gostou Eugénia, olhe que há muitos que passam e não param para entrar dentro deste pequeno , mas maravilhoso, espaço.

Os comentários estão fechados.