Viagem

 

Da rua, sei que deve ser longa
debaixo de outro luar que não
esta insistência de pequenas obsessões nevoadas.
Sei da casa como se a tivesse
no esboço feito ou pensado,
tão igual ao lençol branco
que amortalha os sofás gémeos.
Trago um recado de candelabros
e de hidrângeas para cada janela
e pergunto se é aqui.
Sabe a sal
e à firmeza das raízes o ar que respiro
mas não vim para ficar,
de bagagem só trouxe
um uivo alado
e um espasmo barroco que perdi na viagem.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Viagem

  1. A casa. Aflige-me a casa. O apartamento do terreiro do pó, no Lobito, tão escasso, pouco mais do que dois colchões no chão. Aflige-me cada casa a que nunca mais voltarei. Aflige-me, saber da solidão em que fica, todas as tardes, esta casa onde habito, as mesas, as imóveis cortinas na janela, os livros por abrir, as flores que vão secando na jarra, o telefone que toca ignorando a solidão da sala.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Manuel, as casas que não afligem não merecem ser habitadas. Ou ter sido habitadas.

  2. nanovp diz:

    Não há viajem sem o chegar a “casa”, lembrou-me o Herberto helder :
    “Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder…Falemos de casas como quem fala da sua alma…”

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