A Limonada

Cortava a cebola bem fina na cozinha enquanto as amigas não chegavam para o almoço. O telemóvel já tinha tocado várias vezes, mas não era ninguém a perguntar pelo número da porta ou andar, pelo que não era importante atender.

A salada estava pronta e as notícias não eram boas no telejornal. Baixou o som, pôs uma música alegre e sacudiu o pano da cozinha.

A mesa estava posta desde manhã e não se lembrava qual delas não bebia álcool. A amiga próxima tinha crescido com ela e as outras duas vinham a reboque de um trabalho que estavam a fazer em grupo.

Há 3 meses que o almoço estava combinado e celebravam a entrega do trabalho na data prevista.

Ainda com as mãos a cheirar a cebola e alho picado, foi abrir a porta da rua à vizinha da frente que cheirava a férias. No patamar do elevador as malas e bagagens incluíam cães e a gaiola dos periquitos. Despediram-se já a entrar no elevador. A família do 9ºE deslocava-se do elevador para a garagem e da garagem para a A1 em direcção ao  Ribatejo com o carro atafulhado até ao tecto.

Silêncio.

A casa arrumada estava expectante para receber as visitas que já estavam a parar o carro no estacionamento ao lado do prédio. – Dling-Dlong e a porta abria os braços aos sorrisos da grupeta que enchia a casa de volume.

Eram quase 15h da tarde e escolhia-se a cor das cápsulas do café. Tinha sido uma boa galhofa e a conversa estava em dia. A mesa levantou-se e a conversa continuou animada na sala onde a TV ocupava agora o lugar de surdo-mudo.

Fazia-se tarde.

O sol criava sombras gigantes na fachada do prédio em frente e alguém quis uma limonada. A janela da cozinha estava fechada. O limão espremeu-se. O gelo estalou com o escorregar da água.

Bebeu.

Aproximou-se do vidro e ainda conseguiu ver o autocarro a afastar-se do lento passageiro que não chegou a tempo de entrar.

Abriu a janela. Olhou para o céu. As nuvens estavam pálidas e não havia vento quase nenhum. Pousou o copo na bancada da cozinha. Descalçou os sapatos e debruçou-se sobre o parapeito da janela. Ainda ouviu as amigas rir na sala.

Saltou.

 

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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18 respostas a A Limonada

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Gostei muito, Rita.

  2. Maria diz:

    “Um pouco mais de sol e eu era brasa
    um pouco mais de azul e era além….
    ….. “

  3. ccf diz:

    Rita, espero que ela tenha voado.
    ~CC~

  4. O que terá sido, Rita? O silêncio, as pálidas nuvens? Alguma coisa há-de ter sido e nunca, mas nunca verdadeiramente sabemos…

  5. GRocha diz:

    Despediu-se de quem lhe era importante a “amiga de infância”, fez o seu ultimo drinque à vida com uma limonada e voou…. deixando para trás uma vida que não a preencheu! Talvez encontre o seu rumo e se preencha.

    Lindo texto! 🙂

  6. nanovp diz:

    Voou de certeza Rita, como todos nós que tantas vezes julgamos estar a cair…Bonita, mas triste, história!

  7. maria joão Vasconcelos diz:

    Gostei Rita…..triste mas acontece…uma gota de água que transbordou.

  8. Não gosto nadinha destas surpresas. Má! Porque não agarrou a personagem pelos ombros e lhe disse: onde pensa que vai nesses preparos?

  9. celeste martins diz:

    C´´um caneco !!! Até me faltou o ar !!!!!

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