Algures aonde eu nunca tinha viajado

A primeira vez que li um poema de e.e. cummings foi num filme de Woody Allen. Em Hannah and her sisters, Elliot (Michael Caine), o marido de Hannah (Mia Farrow) oferecia um livro com esse poema (era o da página 112, como ele insistia, ao telefone) a Lee (Barbara Hershey), a irmã mais nova da sua mulher, por quem estava perdidamente apaixonado nesse Inverno. Fixei a última frase do poema, que aparecia luminosa no ecrã negro, como um separador entre duas cenas: nobody,not even the rain,has such small hands. Aquela frase ficou-me a dançar na cabeça, como apenas certas palavras conseguem. Até então, para mim, a poesia eram os mundos de Pessoa. A terra de Eliot. O mar de Sophia. A cidade de Kavafis. A solidão de Rilke. O inferno de Rimbaud. O coração de Éluard. Nunca tinha visitado este país, que não vinha assinalado em nenhum mapa colorido nem anunciado em qualquer um dos muitos globos terrestres da minha colecção. O que também não era de admirar: o país do poeta é dentro dele.

eecummings11

Não me lembro quanto tempo depois descobri este livro fininho, de capa brilhante, de e.e.cummings (os 2 misteriosos e. são de  Edward e Estlin) – xix poemas. Mesmo escritos em numeração romana, tinham um número estranho (talvez por estarem em caixa baixa), completamente diferente do redondo 20. Eram apenas 19 poemas, como se este livro fosse ainda um adolescente no seu último ano de teenager, ou então lhe faltasse um poema esquecido algures. Durante anos, este livro andou sempre atrás de mim. Passou por várias agências de publicidade, na companhia dos dicionários de símbolos, provérbios e sinónimos, livros de teoria publicitária, prontuário ortográfico, anuários de criatividade, livros de filosofia de Levinas e Wittgenstein, romances de Milan Kundera e da chaleira eléctrica, graças à qual servia chá com bolachas aos colegas que visitavam a minha sala (felizmente nessa altura, os open space estavam fora de moda).

capa

Sem o adivinhar, estes xix poemas, editados pela Assírio & Alvim na colecção Gato Maltês (são o número 27), foram a minha minúscula porta de entrada no incomensurável país de e.e. cummings, onde viviam quase 2900 poemas, além de peças de teatro, quadros de influência cubista, histórias para crianças, pinturas a óleo e aguarelas. Mais tarde, juntaram-se a ele vários livros de poemas em inglês (vindos de Londres, em forma de presente), e também olivrodepoemas e as eu:seis inconferências, posteriormente editados pela Assírio & Alvim. Graças a ele, pude finalmente ler e reler vezes sem conta (como se fosse uma declaração de amor) o poema de que apenas me lembrava da última frase. Nesta selecção de poemas retirados de Tulips & Chimneys, & (and), in 5, W (Viva), no thanks  (dedicado às 14 editoras que lhe haviam rejeitado esse original para publicação), Xaipe e 73 poems, entre outros e traduzidos por Jorge Fazenda Lourenço, era o viii poema e ocupava luminosamente a página 43.

algures

algures aonde eu nunca viajei,alegremente além de

qualquer experiência,os teus olhos têm o seu silêncio:

no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,

ou que não posso tocar de tão próximas que estão

 

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me

embora eu me tenha cerrado como dedos,

tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera

(tocando hábil,misteriosamente)a primeira rosa

 

mas se teu desejo for encerrar-me,eu e

minha vida fecharemos em beleza,de repente,

como quando o coração desta flor imagina

a neve em tudo cuidadosa descendo;

 

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala

o poder da tua extrema fragilidade:cuja textura

me submete com a cor dos seus domínios,

representando a morte e para sempre em cada alento

 

(eu não sei o que é que há em ti que fecha

e abre;apenas alguma coisa em mim entende

a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)

ninguém,nem mesmo a chuva,tem tão finas mãos

De tanto os meus dedos o tocarem, o livro foi-se abrindo  folha a folha, pétala a pétala, “como abre a Primavera (tocando hábil,misteriosamente) a primeira rosa” Hoje, é uma espécie de conjunto de pétalas brancas, que apenas sabem o seu lugar graças ao número da página. Por essa altura, eu já só escrevia à mão em maiúsculas e de preferência com marcadores e cores que variavam entre o roxo, azul turquesa e preto. E desde então (terá sido por isso?) comecei a escrever sempre que posso em caixa baixa no computador. Como podem ver, o meu nome e a data estão desbotados pelo tempo, em contraste com os poemas que, apesar de escritos entre 1923 e 1963 parecem tão vivos como se tivessem sido publicados pela primeira vez nesse longínquo Fevereiro de 1992. Esta era a primeira edição. A segunda edição, que também comprei, tinha a capa baça e talvez o dobro do volume. À primeira vista, parecia que carregava consigo mais uma dúzia de poemas. Pura ilusão: eram apenas os mesmos 19 poemas, impressos num papel muito mais espesso.

Fev.

Nas minhas visitas frequentes ao país de cummings, fui aprendendo a reconhecer as suas paisagens e a entender a sua língua. Deparei-me com composições tipográficas de que apenas um pintor se poderia lembrar. A tipografia idiossincrática, que a um olhar desatento poderia lembrar gralhas ou erros, fazia destes poemas verdadeiros objectos visuais, com uma voz  inconfundível. Tudo tão vanguardista para mim, na última década do século XX. Comecemos pelas famosas caixas baixas. Por que motivo escreveria mr. lowercase, como lhe chamavam,  em caixa baixa? Por excentricidade? Num pequeno gesto aristocrático? Ou por grande humildade? Certo é que o eu (sempre o eu, o mais pessoal dos pronomes pessoais), é i em vez de I, outra forma de dizer o indivíduo ou o 1 existencial. A excepcional utilização de maiúsculas pelo poeta das caixas baixas dá distinção e transforma esse ser em sujeito, personificando ou sublinhando uma carga simbólica. Pode ser a Morte, o Amante, Feio, Astuto, Teu, Etecetera. Mas a utilização de minúsculas é apenas um pormenor. Na poesia de e.e. cummings assistimos ao estrear de palavras, à inauguração de verbos e ao ignorar das regras da sintaxe, como numa brincadeira de crianças. Depressa percebemos que o poeta tinha um dicionário privado e por isso parecia que falava e escrevia noutra língua. De linguagem económica e precisa, nunca utiliza muitas palavras. Há muitas palavras não separadas entre si, como amantes que receassem a solidão (e por isso permanecessem abraçados). Sem qualquer espaço vazio entre elas, como se tivessem uma enorme pressa de serem ditas. Ou então, com espaços a mais, como se precisassem de ar para respirar ou se espreguiçarem. As vírgulas colocadas de forma inusitada, qual respiração súbita no texto. A ausência de pontos finais. O parêntesis isolado numa linha, como se tivesse fugido de uma pequena multidão de letras. E o &, a fazer de tudo o que liga uma união comercial. Túlipas & chaminés. tu & eu, pequena noiva & pequeno noivo, anel & cujo.

self2-1

Segundo o poeta, o seu processo poético consistia em aliar à precisão da escrita a criação de movimento e na descoberta de verdades incomensuráveis (como 2+2=5), por contraposição às verdades factuais. A poesia, como explicou e.e. cummings na sua segunda inconferência, é uma questão de individualidade, tal como qualquer outra expressão artística. Não é uma tarefa que qualquer um possa fazer (doing), a poesia é ser (being). Quem quiser ser poeta tem de entrar na incomensurável habitação do ser e esquecer-se de pretensas obrigações, deveres e responsabilidades próprios da civilização do nãoser em que se vive. A sua singularidade, como resposta a uma linguagem tiranizada por regras, não resultava da sua incapacidade de escrever – conseguia produzir um soneto tradicional em meia hora. Consistia antes na afirmação daquilo que é individual, único, através da sabotagem da língua por quem não foi domesticado pela civilização (considerada uma doença confortável). O absurdo permitia ao poeta sair do lugar comum e aos poemas ganharem a forma do seu conteúdo. As suas impressões digitais podem ser descritas como inesperadas justaposições, aliterações, distorções gramaticais e uso & abuso de sufixos e afixos, que evocam imagens surpreendentes. Sempre ao serviço dos seus temas: a afirmação do indivíduo e o seu processo de auto-transcendência, a celebração do amor (o mistério dos mistérios) e a natureza com as suas secretas leis (o Inverno e a morte; a Primavera e o eterno renascimento).

Scan

Alguém definiu a poética de cummings como uma versão lírica de desobediência civil. Mas afinal, o que é preciso para entrar no seu país? Inteligência à velocidade da intuição? Um coração silencioso? A poesia, tal como o amor, é atenção. E como quase tudo o que acontece, passa-se numa região onde a palavra, como se não soubesse a senha, não consegue entrar. Restam-nos as suas palavras escritas a luz na página branca, onde a sombra da tristeza espreita. Palavras que calam o silêncio porque redescobrem o seu sentido original. Então (basta acrescentar duas letras), o poeta torna-se profeta. Ao inventar um poema em que os outros se descobrem, consegue ser ele próprio e cada um dos seus leitores. Como escreveu num prefácio, “the poems to come are for you and for me and are not for mostpeople
… you and i are human beings; most people are snobs”. Os seus poemas devem ser, não lidos ou ouvidos, mas escutados (só assim e então fazem sentido). Continuo a desfolhar as páginas soltas e fico presa a esta última linha: “e eis a lua,mais fina que uma mola do relógio“. Lembro-me, como o coelho branco de Alice no país das maravilhas, que é tarde. Demasiado tarde. Este está escrito devia ter sido publicado algures aqui, algures ontem. Mas acontece que eu estava em viagem num país que não vem no mapa.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.

Esta entrada foi publicada em Está Escrito. ligação permanente.

6 respostas a Algures aonde eu nunca tinha viajado

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Um Está Escrito rutilante. Muito bom mesmo, Maria João. E tens razão, a poesia de e.e. cummings tem a extraordinária capacidade de nos inscrever na memória um verso que não sai de lá e a que voltamos repetidamente, como estes de que me lembro tantas vezes: ” a connotation of infinity / sharpens the temporal splendor of this night”

  2. Excelente Maria João. O cummings é um poeta sensual – como tu mostras ao sublinhar-lhe a especifidade orto, gráfica, sintáctica – e pétala a pétala, como tu dizes e citas.
    Lembrei-me de uns versos perdidos:

    O My lover,
    there’s just room for me in You
    my stomach goes into your Little Stomach My legs are in your legs Your
    arms

    Se bem sei, achoi que nessa altura, ele andava, com as suas pequenas mãos, num céu azul. Belíssimo Está escrito, o teu.

  3. nanovp diz:

    Que bela viagem, do Woody ao e.e., e sempre de volta a ele! Vou procurar de imediato o que penso ser o único livro que tenho dele: o texto deu-me uma enorme vontade de o voltar a ler…

  4. riVta diz:

    gostei muito

  5. Que bonito texto, Maria João… gostei tanto de o ler.

Os comentários estão fechados.