Antes das trevas eternas?

52002_20130716_00_000Ia eu, hoje, a subir a Serra de Sintra, eu e os cães, quando fui assaltado por um sentimento não muito diferente da tristeza do Henrique e do sopro de eternidade do Manuel. Não terá sido tristeza, no meu caso, mas antes uma inquietação, uma angústia sem qualquer justificação. E depois pensei, enquanto lá do alto olhava o Cabo Raso e o mar manso que se estendia sem costuras até ao céu, que estava, ou estamos, no olho do furacão, que é a bonança antes da tempestade. Foi o que pensei quando passeava os cães antes do almoço.

Na verdade há uma estranha bonança, uma calma meteorológica que não é deste tempo. O mar não mexe, o que não é nada normal. Mesmo no Verão, quando há menos ondas, nunca há tantos dias de calmaria, tantos dias sem ondulação nenhuma. E não é só aqui. O mar está raso de Biarritz a Sagres. O Atlântico parece o Mediterrâneo. Algo se passa.

A nortada, que sopra na nossa costa todo o Verão por acção do anticiclone dos Açores e da depressão de Madrid, está quieta. É bom: dá melhor praia, melhor esplanada e melhores noites de Verão; e a Serra de Sintra e o Guincho parecem o paraíso. Mas é estranho. É uma calma estranha, uma quietude de desconfiar, um paraíso que pronuncia o inferno, uma bonança que anuncia tempestade.

Se calhar os Deuses concederam-nos o último Verão, um último ameno e soalheiro Verão antes de nos mergulhar, a todos, nas trevas eternas.

Ou então sou eu (e o Henrique) que, incapaz de carpe diem, estou precisado de medicação.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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18 respostas a Antes das trevas eternas?

  1. Henrique Monteiro diz:

    Ó Pedro, em matéria de medicação cada um fala por si. Eu já a tomo há muito

  2. Pedro, não li o que estava escrito onde escreveu medicação. Li meditação. E com o stress que a sua calmaria provoca a quem como eu sonha com uma onda gigante, aliás, duas que destroem the world as we know it, pensei logo: depois disto quem precisa de 5 minutos de meditação sou eu.

    • Pedro Bidarra diz:

      Às tantas, com a meditação, vamos dar ao “sopro de eternidade” do Manuel.

  3. Olinda diz:

    cá para mim são os ensaios da entrada no purgatório. 🙂

  4. Está aí montada uma calma de cinco séculos.

  5. fiquei preocupada
    ‘postei’ o meu desenho antes de ler o teu
    diz-me depressa o que é que tomas?

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Do Atlântico longe não me lembro de calmaria. Por um par de vezes, semanas a bordo em travessias, obrigaram-me a bolachas de água e sal, maçãs verdes e, na sobremesa, comprimidos. Logo comigo que jamais enjoei em qualquer dos outros mares e oceanos onde andei «embarcada».

  7. nanovp diz:

    Meditação com medicação, uma pode ajudar a outra…e que venham as tempestades…

  8. Paula Almeida Cardoso diz:

    estão todos muito mentais… que tal regressar ao corpinho, à realidade das sensações, sem grandes especulações? no teu livro (brilhante) “Rolando Teixo”, Pedro, é o que se passa. O regresso às sensações viscerais, a uma verdade que contraria o “penso logo existo”; porque isso é pouco.

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