As loiras do 5º esquerdo

Gil Evgren

Gil Evgren

No início, eram somente os vizinhos do 5º esquerdo. Eu no 5º direito. Com o rolar dos meses, passaram à condição de amigos. Jantares, passeatas e encontros na «estranja» compunham ramalhete agradável. Nem o primeiro ano de convivência ia a meio, quando começaram os pedidos de arroz, manteiga, azeite, vinho, tampões, acetona, cotonetes, detergentes, gel de banho, pão e o que mais era precisado. Devoluções nem uma! A Cristina deles era remetida para a minha querida Cila. Bondosa, acedia e reportava-me os assaltos ao despenseiro.

Num final de dia, novo pedido: cervejas geladas que as frescas deles tinham terminado. Grandes males, grandes remédios, cogitei. Respondi: _ Que não seja por isso. Se me permitem vou lá a casa e arrefeço-vos as loiras em minutos. Levo uma à temperatura ambiente para demonstrar. Num saco, enfiei a lata, sal, uma chávena, uma colher de pau, uma pequena bacia de plástico, gelo. Porta em frente aberta, licença para entrar, fui direita à cozinha. Água na bacia, gelo, duas chávenas de sal, a lata. A colher de pau mexeu o conteúdo. Dois minutos contados, gelada a cerveja. A Maria Luísa e o marido, pasmos. Acrescentei: agora resta fazer o mesmo com as vossas cervejas. Boquiabertos, aceitaram-me a despedida. Eu, tolhida pelo riso – bem sabia que o problema não era a frescura mas a inexistência de cervejas em casa.

Explicação:
A água a 0ºC solidifica ao mesmo ritmo que funde em respeito ao equilíbrio dinâmico estabelecido. A adição de substâncias à água, como por exemplo sais, altera esse equilíbrio – a temperatura de solidificação da água desce e permite ao gelo passar do estado sólido ao estado líquido a menos de 0ºC. O calor das latas é transmitido para a água que se encontra numa temperatura inferior à possível num frigorífico.

Saber de propriedades coligativas e crioscopia dá muito arranjo!

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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19 respostas a As loiras do 5º esquerdo

  1. Bruto da Silva diz:

    É preciso ter (muita) lata 😉

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Nada entendi pelo som deficiente e sequência estranha.
      Com gosto, segue este.

  2. nanovp diz:

    Vem a calhar Maria do Céu, mas tem de haver a matéria prima….a magnifica “jola”…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Sem matéria prima, querido primo, não há mundo.

      • Bruto da Silva diz:

        É uma enorme injustiça para com a matéria Tia: com “ela” o mundo pula e avança 😉

        Esta também é muito divertida para entreter a vizinhança 😉

        • Maria do Céu Brojo diz:

          Posso assegurar-lhe que não resulta e se bem tentei ao fazer ensaios laboratoriais para ‘workshops’ que dirigi. Razão? _ a marca de pastilha elástica recomendada não está à venda em Portugal.

  3. Ivone Mendes da Silva diz:

    O que eu já me ri com isto, Maria. E outra coisa: nunca aprendi tanto de Química como desde que leio os seus posts.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Obrigada, Ivone. Desmérito de quem nunca foi capaz de lhe provar que a Química é divertida.

  4. riVta diz:

    bem divertido
    lol

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Usar os outros deixa-me fula. Por isso, o casal estava a pedir resposta adequada.

  6. Mário diz:

    Regra básica de má convivência: nunca se deve dar confiança à vizinhança, afinal, eles sabem onde moramos! Sei de quem se finja de morto quando os vizinhos chatos começam a ter hábitos de visita. Não é o meu caso. Sou simpático para todos mas não sou especialmente simpático para nenhum. E reuniões de condomínio nem vê-las. O reverso? tenho de arrefecer as cervejas sozinho.

  7. Genial, Maria. Vou já a correr beber uma cervejinha.

  8. Se eu um dia explodir a casa, menina Céu, a culpa é sua: não nascemos todas para a química.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Por perto, extintor com dióxido de carbono a alta pressão é prudente já queo simples cozinhar é Química em ação.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Pouco sei de passarada.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Muito bem!

  11. Maria do Céu Brojo diz:

    Brasileira? A informação é certamente. Pena não ter nada a ver com o tratado aqui.

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