Beautiful twists

Às vezes, como toda a gente, procuro umas coisas e encontro outras, sendo que a descoberta, amiúde, se revela tão ou mais interessante do que o procurado.
Andava eu, pois, numas demandas sobre fotografia de moda, mais especificamente em busca de imagens das photo-stories que Steven Meisel faz para a Vogue italiana. Pensáveis que a minha vida era só Eurípides? Ai, não é, não. O que procurava não encontrei, mas dei com esta imagem que já conhecia. Está numa Vogue norte-americana de 2004, da qual já fui possuidora e se perdeu em alguma arrumação mais diligente, e é de Annie Leibovitz.

vogue-depardieu

Nela, Gerard Depardieu, antes de ser russo, enlaça, numa assertividade de tipologia anda-cá-que-és-minha, uma Gisele Büdchen que se inclina muito ao género deixa-me-ir-embora-porque-me-está-apetecer-ficar. Havia, por certo, outros modos de fotografar o vestido haut-couture que a modelo enverga e as calças griffées de Depardieu, acontece que esta série de fotografias foi feita enquanto no Metropolitan decorria uma temporária de pintura francesa que evocava os ambientes pré-revolução e isso inspirou, decerto, a fotógrafa.
Se olharmos para este Le verrou, pintado por Fragonard entre 1774-78, não podemos deixar de sorrir:

verrou

O quadro chama-se Le verrou, O ferrolho, por causa da mão que a figura masculina levanta em direcção ao trinco da porta. Para corrê-lo ou para abri-lo, dividem-se as opiniões. Aliás, todo o quadro se presta a interpretações diversas: é um amplexo violento e forçado ou trata-se de uma intensidade consentida?
Annie Leibovitz recriou a cena, o mesmo dossel vermelho envolve a alcova, o mesmo desalinho nos lençóis.
Repare-se que os objectos a serem publicitados são o vestido de Gisele Büdchen e as calças de Depardieu. Mais do que roupa, sugere-se um modo de vida intenso e decadente, sumptuoso e envolvente. Por alguma razão foi escolhido um actor e não um modelo para figurar o cavalheiro setecentista neste cenário ambíguo.
O encanto da fotografia de Leibovitz reside nos sábios cruzamentos semióticos que actualizam a lição de Jakobson : “Todas as artes são comparáveis.”
Não podem ficar aferrolhadas, cada uma para seu lado.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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8 respostas a Beautiful twists

  1. Muitíssimo bem visto, Ivone. Vê-se bem à luz de Fragonard, mal se vê na obscuridade da Leibotvitz.

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Fragonard foi luminoso nestas subtilezas. Ainda bem que gostou, Manuel.

  2. “No More Stars” é nome da série do artista novaiorquino Rä di Martino. Durante um rolê pela Tunísia, ele fotografou o que restou do cenários feitos para a trilogia Star Wars. A paisagem desértica serviu como background do plante Tatooine, terra natal da família Skywalker.

  3. Rita V. diz:

    Talvez ele estivesse a abrir se fugisse da nudez
    Vestidos … Aferrolhou-se para a despir de vez!
    Lol

  4. nanovp diz:

    E o Depardieu tão magrinho…gosto muito da repetição do que já antes aconteceu, similaridades e precedências…muito bem visto e descoberto Ivone!

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Sim, estas intertextualidades são sempre um assunto fascinante, Bernardo.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    A observadora atenta e criteriosa estas belezas não ficam ao lado da passagem. Gostei e muito, Ivone.

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