Cantando canta leta la mia morti

NuovoNapoli

No jamais esquecido “É Tudo Gente Morta” – o que foi bom será sempre muito bom! – há dois anos e meio espantei-me (sem que desse espanto tenha saído a mínima filosofia) com uma canção. Vai daí, hoje, nas caixas de comentários, a Ivone, Triste, lembrou-se da canção, lembrando-ma também.  Fui buscar o velho post e o vídeo da canção com o delírio, lamento, tormento e melancolia que vêm por junto.

Talvez seja o tom, entre a melancolia e a violência. Talvez seja por parecer um lirismo que se nega a si mesmo. Um lirismo que pode ser cantado por um tenor, mas que podia ser também cantado por camponeses ou assassinos, se assassinos ou camponeses visitassem a sombra de um claustro. Stu pettu è fattu cimbalu d’amuri será uma canção de amor e dor, e a mim parece-me sobretudo uma canção de intriga e doença, de religião e sul.

Guido Morini dirige musicalmente o ensemble Accordone e as vozes, de dois napolitanos, são de  Marco Beasley (o tenor calvo)  e Pino de Vittorio  (o histriónico e esticadinho). A genialidade às vezes tem voz.

Stu pettu è fatto cimbalu d’ amuri
Tasti li sensi mobili e accorti
Cordi li chianti, suspiri e duluri
Rosa è lu cori miu feritu a morti

Strali è lu ferru, chiai sò li miei arduri
Marteddu è lu pensieri, e la mia sorti
Mastra è la donna mia, ch’à tutti l’ huri
Cantando canta leta la mia morti.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a Cantando canta leta la mia morti

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Ou como se os assassinos cantassem. Isto é tão bom de ouvir, Manuel, é de uma estarrecedora beleza. Também os pus a cantar, de manhã, n’ A Ronda e não tenho ouvido outra coisa o dia todo. Estou aqui, estou a pensar em siciliano o que, em mim e diga-se de passagem, não será difícil …

  2. António Barreto diz:

    Gostei muito. Desconhecia.
    Há algo de paradoxal, de absurdo, nos sicilianos; a violência física vive paredes meias com intensos e genuínos afetos. Terá uma coisa a ver com a outra?

  3. canta canta fê-lo Cavaco e no final amor brotou:

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Taxi, não sei se foi a secreta, mas cortaram o pio aos teus cantores… Ms já ouvi noutro lado e achei muito romântico, claro.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    E lá me ilustrou outra vez, Manuel. Vou deleitar-me de novo.

  5. riVta diz:

    vou ouvir outra vez

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