Da varanda da minha cidade

 

La condition humaine. Magritte.

La condition humaine. Magritte.

Claro que podemos gastar os neurónios a fazer análise politica da mais fina. Da mais inteligente. Podemos calcular, com requintes de sofisticação ou de malvadez, o deve e o haver de todos os actores da farsa que parou o país nas últimas semanas. Podemos proclamar que o Presidente “perdeu margem de manobra”, que Passos “saiu reforçado”, que Portas “está desacreditado” ou que Seguro “está a prazo na liderança do PS” porque não soube aproveitar a oportunidade para se afirmar como um chefe incontestado. Poder, podemos. Mas isso não passa de meta-política. É verdade que estamos tão viciados neste tipo de deleite intelectual que nem nos damos conta de que a respiramos numa sofreguidão cega. É verdade que à força de querer parecer tão inteligentes fomos esquecendo a cidade, fomos perdendo de vista a polis. A meta-política dos ganhos e perdas, dos comentários e das análises, não passa de uma reflexão umbiguista, desligada de qualquer consideração ética ou propriamente politica, que dispensa a substância para se fixar na fugidia arte da forma.

Talvez valesse a pena, por isso mesmo, deixar a caverna por instantes e voltar a olhar a cidade. E o que é que se vê, pousada a primeira poeira desta tragédia, quando deixamos o mundo palaciano das sombras chinesas, das redacções e das sedes partidárias? Deixem para trás a contabilidades das perdas e dos ganhos que nos querem fazer confundir com o alfa e o ómega da arte da política. Deixem para trás o cinismo ácido que muitos equiparam a medida única da inteligência analítica. Centrem-se na cidade, pensem por uma vez na polis e digam-me o que vêem. Seria assim tão absurdo o pacto de salvação proposto pelo Presidente? Será assim tão estranho que aos partidos que nos governam há trinta anos ousemos pedir responsabilidade e bom senso? Será assim tão esdrúxulo que, uma vez sem exemplo, lhes peçamos para fazer do país onde viverão os nossos filhos o centro das suas preocupações e anseios?

Centrem-se numa observação lúcida da cidade e convirão que não é bonito o que se vê da varanda. Partidos que perderam o contacto com a realidade. Que não souberam perceber o anseio, genuíno, profundo, angustiado, de um país causticado que quer salvar-se do abismo. Que não conseguem ver mais longe do que o horizonte das suas vaidades. Que não conhecem um tempo que não seja o hoje e agora. Partidos entretidos numa valsa macabra, num mundo que é só deles, e que nunca, nem por um curtíssimo instante, consideraram seriamente a hipótese de bailar na direcção de um apelo que, no fundo, era tão só um apelo ao bom senso.

Se para mais não serviu, a proposta do presidente serviu para isto. Caíram as máscaras, foram-se as sombras. E nada será como dantes. O país inteiro assistiu ao embuste grotesco. O que aí vem não pode ser coisa boa.  Uma curta viagem pela antecâmara das tragédias do século vinte chega para perceber que não há nada de bom que possa sobrevir a um sistema partidário que perdeu o respeito do país. Repito: o que aí vem não pode ser coisa boa.

publicado na Visão em 25.7.2013

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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9 respostas a Da varanda da minha cidade

  1. Eu imagino que o poder já não está de facto na política ou nos políticos, e que assim sobrou apenas o teatrinho dos ‘robertos’ para nos entreter. Infelizmente, tenho a certeza disso, como também tenho a certeza absoluta de que o mundo financeiro – o verdadeiro poder, afinal – é intrinsecamente suicida mesmo sem o saber.
    Claro que não pode ser coisa boa, mesmo neste microcosmo.

  2. Solipsismo e meta-política – tão bom texto para tão má verdade. Gostei muito, Pedro.

  3. Pedro Norton diz:

    robertos é muito bem achado!

  4. Pedro Norton diz:

    Ainda bem menina eugénia!

  5. Olinda diz:

    vêem-se coisas boas, dessa varanda, mesmo antes de se avistarem as más. fossem assim as verdadeiras intenções e tudo se resolveria.

    é uma espécie de esperança invertida, gostosa, essa aí de cima.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    O que se vê da varanda já é mau, mas o que da varanda não se consegue ver ainda é pior.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Tão realista e bela a sua varanda, Pedro! Gostei até mais não poder.

  8. nanovp diz:

    Pois então não queiras abrir o armário….

  9. riVta diz:

    belo post nu

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