Duplo Barrete

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“Depois da Terra”, de M. Night Shyamalan + “Paixão”, de Brian de Palma

Depois do catastrófico “O Último Airbender”, M. Nigh Shyamalan continua metodicamente a afastar-se do que já foi: um grande cineasta contemporâneo. Defender o brilhantismo de Shyamalan é o mesmo que jurar numa conferência da Culturgest que Straub e Huillet são  pomposos vendedores de banha da cobra. Mas será que David Thomson ou João Bénard da Costa estariam enganados quanto ao génio deste nativo de Pondicherry, na Índia? Esqueçam por um momento o twist final, essa marca registada do criador de “O Sexto Sentido”, gesto narrativo tão lúdico como o “macguffin” de Hitchcock (aí está outro cineasta religioso): na sua busca do sagrado pelo cinema de terror, thriller ou ficção científica, recorrendo ao medo ou ao maravilhoso sempre em linhas horizontais prolongadas no mesmo plano, sem recurso à montagem, de marcas obsessivas como a importância dos elementos (sobretudo ar e água), as imagens reflectidas (são elas que salvam os heróis de “Sinais” ou “O Protegido”) e as crianças como derradeira chance redentora da humanidade – estão em todos os seus filmes -, Shyamalan poderá ser para muitos um cruzamento demasiado indigesto entre Disney, Dreyer e os irmãos Grimm. Mas, goste-se ou não, poucos podem negar que o homem é um autor. Shyamalan somou desaires na bilheteira, caiu de vez em desgraça com o repetitivo “O Acontecimento” – a imaginação parece ter-se esgotado –  e, agora, só o deixam fazer cinema infanto-juvenil. Este “Depois da Terra” é a segunda experiência, com o alto patrocínio da família Will Smith: Dez séculos após um desastre que tornou a Terra inabitável para os humanos, estes refugiaram-se no planeta Nova Prime. Ao regressarem de uma missão, transportando um bicharoco com inclinações assassinas, Cypher Raige, o líder dos Ranger Corps (Will a fazer beicinho) e as suas tropas, que incluem o cadete Kitai, filho do comandante (um chorão Jaden Smith) aterram de emergência no que resta da Terra, perdendo o engenho que lhes permite pedir socorro. Cypher tem as pernas partidas, e terá de ser o imberbe Kitai a embrenhar-se na selva  para resgatar o sinal de SOS. Não tem o estupendo ambiente kitsch de “O Último Airbender”, mas o talento singular de Shyamalan arrasta-se por menos de meia-dúzia de planos. Se os temas ainda estão lá, o resto é como olhar para o fantasma de um Verão em que já se foi feliz.

“Paixão”, De Brian de Palma

Após o previsível ocaso de M. Night Shyamalan, eis que chega o pior filme de Mr. Brian de Palma desde “Em Nome de Caim”, já lá vão 21 anos (não, não me estou a esquecer de “A Dália Negra”). Depois de “Redacted – Censurado” (2007), um olhar tenso e “in your face” sobre a intimidade da guerra, De Palma não arranjou dinheiro para filmar nos EUA, acabando por receber financiamento de admiradores franceses e alemães.  Não é que De Palma, agora com 72 anos, tenha deixado de ser De Palma: em “Paixão” permanecem o sentido voyeurista, o fetichismo, a misoginia, os labirintos e passagens secretas para filmes clássicos, as matrioskas de outros filmes seus, as vigilâncias furtivas, as loiras de gelo vulcânico. No seu melhor,  De Palma é o grande prosador/intriguista da cultura pop (pelo menos até aparecer um tal de Tarantino), levando o jogo das duplicações – a Isabelle de Noomi Rapace é a doppelganger da Christine de Rachel McAdams – ao limite da abstracção, como no genial “Femme Fatale”. No seu pior, torna-se um cineasta estéril, um “idiot savant” cujos jogos de espelhos apenas escondem o vazio. “Paixão” é o italo-americano no seu pior: “remake” de “Crime D’Amour”,  derradeiro filme de um realizador francês bastante subestimado, Alain Corneau (experimentem-lhe “Nocturne Indien”, baseado em Tabucchi e sob o espectro de Pessoa), é estética e narrativamente inferior ao original, parecendo filmado nas traseiras de um armazém da Rinchoa – a acção decorre numa deslavada Berlim – e escrito por um veterano de fotonovelas. Isabelle, assistente de Christine, a gestora de uma multinacional do ramo publicitário, vive fascinada pela patroa. Mas quando esta rouba um conceito seu para uma campanha que define carreiras, Isabelle começa por surripiar o namorado de Christine, e as traições mútuas serão mais do que as voltas de uma roda gigante. O problema é que De Palma recicla, imita e regurgita os maiores defeitos de De Palma, dos travellings circulares onde se queria sossego a um “split screen” com o suspense de um jogo de badminton. Irrevogavelmente medíocre.

Publicado na revista Sábado

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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13 respostas a Duplo Barrete

  1. Olinda diz:

    é um gosto vir ao teu cinema.

  2. Obrigado, Olinda, é um gosto receber-te.

  3. Rita V. diz:

    É um ganda post.

  4. Sempre gentil, Ritinha.

  5. Ivone Mendes da Silva diz:

    Pedro, que grande texto. E tanto saber ver cinema e dele escrever dá uma triste inveja.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    É que nem os trailers vi. Mais dois para o vídeo, se é que algum dia… Thanks, Pedro.

  7. Inveja retribuível, amiga Ivone. Até aos trailers ainda podes ir, doutor. Serão bem melhores que os filmes.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Que bem sabe este escurinho do cinema, Pedro!

  9. E é bom partilhá-lo contigo, Maria do Céu.

  10. nanovp diz:

    Para quem tem, como eu, dúvidas sobre o que ver no grande ecrâ, estes são trechos inestimáveis Pedro…e de grande escrita, como sempre!

  11. Simpatia tua, Bernardo. São ambos muito de evitar, de facto.

  12. gold price diz:

    O terror à flor-da-pele em Missão: Marte é apenas seu melhor aspecto; não é, de modo algum, o seu valor essencial. De Palma parece interessado em esculpir algo de grandioso a respeito da força humana responsável pera superação. Não é por acaso que todos os personagens deste filme são heroicos. Transgredir a dor, aceitar as limitações e prosseguir. Em Missão: Marte, a partir da abdicação da fuga, a humanidade surge. É a tomada de responsabilidade e o seguir em frente. Seus personagens nunca olham para trás e não tremeluzem diante da decisão. O sacrifício do personagem de Tim Robbins, a última decisão do personagem de Gary Sinise. Nos filmes de ‘de Palma’, sempre há alguém que tenta impedir um assassinato, mas não consegue. Nos mundos que de Palma constrói, a falta de sintonia entre as pessoas está junto ao sangue, à psicose, à morte. Seus personagens tiveram que fugir desse mundo para encontrar essa sintonia. No vácuo do universo, milhões de quilômetros longe da terra, é onde seus homens e mulheres estão mais próximos uns dos outros – e de si mesmos. E eles sempre chegam a tempo.

  13. Muito obrigado, goldprice (neste momento, o ouro é o único valor seguro). É sempre retemperador quando uma visita acrescenta algo de relevante ao que escrevemos.

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