Em Terra Distante (II)

Paisaje Inventado, 1972, Manuel Álvarez Bravo                                                                                        Paisaje Inventado, 1972 Manuel Álvarez Bravo

O largo das palmeiras cobria do vento as casas que o cercavam em planos coloridos, reflectidos nos pequenos jardins exuberantes logo na frente das fachadas revestidas a madeira. Ao centro, e sobre o lado poente, a igreja caiada de branco parecia uma noiva vestida a rigor por entre os troncos esguios das palmeiras e as folhas gordas das árvores de borracha que caíam pesadamente, quando secas.

Um aperto estranho no corpo delgado, quando após anos de êxodos forçados em terras estéreis e sem alma, Isabel voltava a olhar, do topo da serra, a baía sinuosa sobre a linha de água acastanhada, antes da descida da camioneta. O chão era um tapete fofo de pó, e logo saboreava o odor das árvores ricas de fruto, o cheiro da madeira queimada nas lareiras das pequenas casas, e o próprio rio, que misturava um sabor a água doce com raízes e troncos molhados.

-Ensinaste-me a ver as coisas…Ensinaste-me a olhar de forma pausada o tempo, que ao passar na corrente do rio fica imutável enquanto o olhamos, sem o querer apressar.

Isabel passou dias, meses, a olhar esse rio, com a raiva de quem não pode esquecer que perdeu a vida, com um ódio de quem já não consegue sentir o vento fresco no quarto depois de uma noite de amor. Porque foi isso que a matou para sempre e lhe tirou a felicidade. Isabel perdeu a ideia do amor quando perdeu a memória de Roberto.

Roberto tinha olhado Isabel pela primeira vez como num grande plano fixo de uma câmara invisível e inexistente, os cabelos castanhos numa face escurecida por uma vida ao sol, um nariz oblongo sobre uma boca semiaberta num sorriso branco, os olhos verdes profundos como rochas submersas numa praia de água transparente.

-Que surpresa! No meio deste deserto, desta vila perdida no fim do mundo após viagem interminável… Aqui até as pedras parecem ser bonitas, pensou!

Tinha fugido porque andava sempre a fugir. A sua vida era andar sempre em frente, não importava saber para onde, importava sair, andar, não deixar criar musgo nos pés. Tímido, refugiava-se na sombra das paredes de bares desconhecidos, onde estranhas intimidades se desenrolam e dissolvem como o fumo volátil que se escapa no ar, por entre ranhuras onde a luz do dia se recusa a entrar, os olhos cerrados no cansaço das noites não dormidas.

Um mar de copas redondas verdes deixava o chão coberto de humidade, a cheirar a caruma, a pele das árvores que se mistura com a terra escura e molhada. Isabel gostava de atravessar esse pequeno bosque de manhã, a luz ainda fria dos raios de sol que perfuravam os ramos, e sentir o aroma do rio por entre as agulhas picadas dos pinheiros.

Naquele dia Isabel, antes de sair de casa, sentiu uma corrente de ar frio que lhe eriçou os pelos loiros do braço, a porta da cozinha a bater de um vento precoce que fazia rodopiar os moinhos de papel pendurados na entrada.

As gaivotas, velhas de travessias até ao mar, bicavam os restos da comida dos cafés, sobre uma água lisa de prata. O cais animava-se com a chegada dos barcos e a panóplia de pássaros que os seguiam, na esperança de conseguirem qualquer migalha para assentar a fome. Cheirava a rio e gasóleo, ao mar longínquo e ao vento feroz. Tinha passado uma vida a olhar o tempo a desenrolar-se no vai e vem das pequenas embarcações que traçavam os caminhos em rastos de fumo negro, a linha do rio traçada em pequenas correntezas de ondas.

O dia em que tudo mudou, drasticamente e para sempre, levando esperanças e hábitos para longe, transformando o quotidiano numa sucessão de actos desconhecidos; nesse dia, em que tudo ruiu à volta de todos, em que até o tempo parecia ter-se zangado com os homens, o riu vociferava em vagas de espuma que torciam os longos pontões de madeira no molhe, a chuva tombava do céu em bátegas pesadas e duras que magoavam o corpo e furavam o chão como balas de aço sobre a terra. Nesse dia Isabel acordou de um sono sem sonhos, nua sobre os lençóis azuis, e sentiu a tragédia perto, como uma premonição, por não ter ouvido o chilrear do melro junto do largo tronco do pessegueiro, mesmo em frente da janela do seu quarto, no segundo andar daquela pequena casa na Rua dos Solários, onde durante toda a vida se lembrava de descer as escadas com o bater dos sinos na igreja, anunciando a oração da manhã ou os festejos na época do verão.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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11 respostas a Em Terra Distante (II)

  1. Olinda diz:

    lindo, Bernardo. venha o resto.

  2. Como é que se dá conta desses dias, da estranheza de uma corrente de ar, a suspeita de uma vaga de calor… E que se faz quando damos conta?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Mais, mais, mais. Gostei tanto, Bernardo…

  4. nanovp diz:

    Ainda bem Maria do Céu, mas cuidado com as expectativas…

  5. Rita V. diz:

    Então…e depois?

  6. E continuamos à espera…

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