História de uma bebedeira no Serengeti

 

fotografia de Maria Bruno da Costa

fotografia de Maria Bruno da Costa

O champanhe, é sabido, é para as ocasiões especiais. Mas que motivo especial é esse que pode justificar sermos recebidos com uma garrafa de champanhe depois dum passeio de balão? Cheira a novo-riquismo por todos os lados, pois é. E quase se arrisca a destruir a magia de um voo planante a ver o dia a nascer nas planícies tanzanianas do Serengeti, com a fauna selvagem, lá em baixo, a ensaiar os primeiros movimentos da manhã. A não ser, claro está, que haja mesmo uma especialíssima razão para fazer espumar a garrafa. A verdade é que, logo a seguir à aterragem, e já com os copos a transbordar de Moet ou Veuve, não faltaram vozes indígenas a jurar a pés juntos que o hábito foi enraizado há mais de dois séculos, por alturas de 1783, quando os irmãos Étienne e Jacques Mongolfier se lançaram nas suas experiências tripuladas com balões de ar quente na corte de Luís XVI – contrariamente ao que é apregoado na planície do Serengeti, manda o rigor histórico e o luso patriotismo dizer que não foram os irmãos Montgolfier os inventores do balão, pois que, 74 anos antes, já a Passarola de Bartolomeu de Gusmão (um aeróstato movido também a ar quente) sobrevoara Lisboa num voo tripulado.

A história (ou a lenda, para os mais cépticos) conta-se em duas penadas. Depois duma primeira experiência com animais (uma ovelha, um pato e um galo), haveria que encontrar voluntários para uma expedição tripulada por homens no balão dos Montgolfier, o que se revelava uma empreitada bem difícil. Isto porque os animais acabaram por não sobreviver à viagem de balão, embora da forma mais improvável. Nada que tivesse a ver com o voo propriamente dito ou sequer com a aterragem, que foram bem sucedidos, mas com aquilo que se passou depois do balão ter assentado em terra firme. Os agricultores locais, vendo um objecto estranho nos ares a ser propulsionado por uma chama gigante, julgaram tratar-se de obra do demónio e não hesitaram em dar cabo dos pobres animais assim que o balão se imobilizou no solo. Temendo que a chacina se repetisse com uma tripulação humana, e que ninguém se voluntariasse para a missão, ainda pensou o Rei em destacar para o efeito um conjunto de prisioneiros que aguardavam execução por odiosos crimes praticados. Impediu-o Maria Antonieta, num assomo de lucidez de que só viria a dar provas nos últimos anos da sua vida, que lembrou ao marido que, se a empresa fosse bem sucedida, os terríveis criminosos seriam certamente acolhidos como heróis nacionais e dificilmente poderiam voltar aos calabouços. Foi então que surgiu a ideia do champanhe. Umas boas garrafas de champanhe seriam certamente suficientes para convencer aqueles que recebessem nas suas terras o balão das boas intenções dos seus tripulantes. E, para que não houvesse dúvidas de que não se tratavam de enviados do diabo mas, sim, de Sua Majestade Luís XVI, as garrafas viriam assinadas pela mão do próprio monarca e exibiriam o selo da casa real.

E foi assim mesmo que se completou com sucesso total a primeira expedição humana no balão Montgolfier. Depois dum voo de 22 minutos que sobrevoou Paris, o balão tripulado por Jean François Pilâtre de Rozier e pelo Marquês François-Laurent d´Arlandes acabou por aterrar numas vinhas situadas a 6 quilómetros de distância do ponto de partida. Só o champanhe da casa real sossegou os espíritos inquietos dos agricultores locais, assustados com um dragão de fogo a descer dos céus, dando origem a uma tradição que – como pude testemunhar nas planícies do Serengeti – continua a ser seguida nos dias de hoje. 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a História de uma bebedeira no Serengeti

  1. Rita V. diz:

    Tudo fantástico. Desde a foto à história passando pela ressaca.
    🙂

    • Rita, e ainda mais fantástico foi estar lá no Serengeti para recriar a história. Com a diferença de que, agora, já não são agricultores que olham para cima desconfiados e assustados mas… gazelas, girafas, leões e outros que tais.

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Fabuloso, Diogo. Belíssima história e tudo o mais. Gostei do pormenor da sagesse tardia de Maria Antonieta. Chegou-lhe tarde.

    • Ivone, é um pormenor, é certo. Mas só ele, talvez, me faz duvidar da total veracidade da história. Em 1783, ainda havia Trianon a mais na vida de Maria Antonieta. Ainda bem que gostaste.

  3. nanovp diz:

    Nada como boas ideias, e o próprio Champagne costuma ser responsável por algumas…Belas férias selvagens Sr. Dr. !!

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, claro que há quem entenda que o champanhe, mais do que servir de inspiração para uma boa história, é pretexto para cobrar uma nota bem grande pelo passeio…

  4. Quem merce que se abra uma boa garrafa de champagne és tu, Diogo. Com passarola ou sem passarola.

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