Losango regular: o marido, a mulher, o primo e…

 

 

O reve­rendo D’ Ewes Coke, sua mulher Han­nah e Daniel Par­ker Coke. (circa 1781–82) Joseph Wrigth of Derby. Óleo sobre tela. 152,4 X 177,8. Derby Art Gal­lery. Derby

O reve­rendo D’ Ewes Coke, sua mulher Han­nah e Daniel Par­ker Coke. (circa 1781–82)
Joseph Wrigth of Derby.
Óleo sobre tela. 152,4 X 177,8. Derby Art Gal­lery. Derby

Sem que o traísse a postura, o Reverendo D’Ewes Coke sentia-se enfadado. A estada em Bath não fora aprazível. Haviam sido constantes as lamúrias de Hannah pela chuva e vento dum estio miserável que culpava de ter arredado famílias amigas. Reunidas, era costumado lustrarem a vida social. Sem préstimo ficaram nos baús vestidos costurados a propósito para festas, para receber e visitar. Constantes também tropelias, gritos, brigas dos três rapazes obrigados pelo mau tempo a permanecerem em casa. Nem os serviçais nem a autoridade paterna lograram refreá-los. Faltara a D’Ewes Coke tranquilidade para leituras, alegria nos dias pela ausência dos Barringtons, em particular de Amanda Barrington. O sol em falta ao Reverendo fora o refletido pelos caracóis dourados e pele macia de Amanda. Sem alternativa, gerira os negócios da Pinxton China, retomara os esboços da Mansfield and Pinxton Railway e dos jardins da casa herdada onde iriam residir. Saber esperá-lo a confusão da mudança para Brookhill Hall, perto de Pinxton, e as exigências de Hannah em novos requintes agravaram o mau humor e fastio.

No regresso de Bath, o primo de Coke, Daniel Parker, fora chamado a pedido de Hannah. Acedera contrariado: irritavam-no em Daniel, membro do Parlamento, as intimidades com Hannah, os maneirismos londrinos duma elite palavrosa que sacudia para empreendedores como ele a gestão, lucrativa embora, de empresas fabris e milhares de trabalhadores. Escravos da revolução industrial em curso, diziam mais e mais vozes. A pain in the ass, dizia ele.

Chegado o final de Setembro, ainda Daniel continuava em Brookhill Hall. Após a refeição da manhã, passeio nos hectares que circundavam a casa. Pausa junto da suave colina engalanada pelo cobre da folhagem. O Reverendo propõe refletirem sobre o desenho do jardim. Perante o silêncio respeitoso da mulher e do primo, desenvolve o plano que o ocupara em Bath. Mostra o esboço que afirma secreto até aquele momento. Daniel, mudo. Hannah acena um talvez sim. Retira do portefólio das aguarelas que pinta, uma. Conceção do jardim oposta à linear do marido: romântica. O marido, mudo. O primo sorri. A mulher afogueada fosse pela atitude, pelo marido ou pela cumplicidade do primo. Desfaz o impasse: _ Sabe que a Amanda Barrington preferiu este ao que lhe mostrou em Pinxton quando voltámos de Bath? Não se preocupe que fui discreta. Afirmei ter recebido os cumprimentos que me enviou através de si.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a Losango regular: o marido, a mulher, o primo e…

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Muito bem, Maria. Eu já sabia que conseguiria criar um belo equilíbrio geométrico a partir da imagem.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Que bom ter gostado. De algum modo, quando escrevo no Museu das Curtas, o texto é dedicado a quem inaugurou o desafio. Neste caso, a Ivone.

  3. Gostei dos maneirismos londrinos da elite palavrosa. Bons tempos. Que sossego seria o Holland Park

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Não sendo elite, sou palavrosa e dizem-me ter maneirismos. Assim sendo, uma autocrítica.

  4. nanovp diz:

    Não se pode confiar nos primos, nem lhes pedir a opinião…e logo sobre um jardim, romântico claro…

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