Matar o marido

Matar o marido parece-me uma boa ideia. Se tiverem calma, explico já tudo. Três das minhas amigas nunca foram casadas e isso amargura-lhes a vida. Não sei bem se pela ausência da marital figura, que pensam ser a panaceia para os males do mundo delas, se por considerarem que o estado civil lhes confere uma allure negativa na ida aos mercados. Uma delas, então, sofre que é uma dó de alma. Vai beijando uns príncipes e é com cada sapo que só visto. Depois choraminga um bocado e passa-lhe. Até à próxima. Um destes dias, voltei a ouvir-lhe as queixas. Lá fui desfiando (avisada que sou, been there, bought the t-shirt) as asperezas da conjugalidade, as camisas com vinco e outras arestas. A nossa Eugénia tem, aí mais para baixo, um poema (luminoso, claro) onde há um verso que diz Um marido parece-me uma coisa decente. Tem a Eugénia muita razão, como sempre. Um marido é uma coisa decente. É decente, mas não é um básico essencial. Um básico essencial é um vestido preto para o que der e vier e um casaco quente para o Inverno. Um marido é uma pulseira. Isto tentei eu explicar, mais uma vez, à minha amiga. Ela, coitadinha, tem muita consideração por mim, não mereço tanto porque só lhe digo disparates que tem de temperar cum grano salis e bondade, ouviu mas continuou a fungar. Vai daí, eu disse: tens de matar o marido. Fungou com mais força: és tão parva, pois se não tenho nenhum, como hei-de matá-lo? Explico que é tudo conceptual. Aquilo tornou-se-lhe uma obsessão do tipo eucalíptico. Se é que uma obsessão não é sempre um eucalipto a secar tudo à volta. E, se não cresce maturidade sem a morte do pai, se ela não mata o marido, a vida mirra-lhe. E digo: fazes assim, pensas no marido, tens prática, sabes pensar no marido. Depois, quando ele estiver parado e à espera no meio dos teus pensamentos, fazes que nem Leonor da Aquitânia e dás-lhe a escolher entre o punhal e a taça de veneno. E vais à tua vida, é importante irmos à nossa vida. Ela abanou a cabeça e sorriu. Mas não adianta, vai continuar na demanda do graalmarido.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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16 respostas a Matar o marido

  1. Amiga da Ivone,

    aquilo do poema é bondade da sua amiga, foi uma brincadeira valentina em rimas bebés. Mas sem brincar, explico-lhe num segundo como arranjar marido – depois se o quiser deixar no altar, perdão, matar é lá consigo.

    1. não goste de ninguém, sinta-se livre para gostar;
    2. lembre-se: não se atrai aquilo que se quer, atrai-se aquilo que se é e que é complementar à sua natureza. Se está triste atrai mau estar, se é uma vítima atrai mais vítimas e predadores. Quer mudar o que atrai, tem de mudar o que é;
    3. já o tio Aristóteles dizia: se agir virtuosamente, faz-se virtuoso. Aja como se fosse casada;
    4. e agora o fundamental: é preciso ver o golo marcado para conseguir marcar, qualquer desportista sabe isto.

    Have fun!

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Oh que gentileza dar-se ao trabalho, querida Eugénia. Já lhe enviei o link com esta sua bela responda e acho que ela vai apreciar, tem muito mais consistência do que as minhas tolices.

  2. riVta diz:

    in the hole … é a expressão mais parecida com golo marcado … no Golfe é mesmo ‘aimar’ ao buraco e esperar que entre! Se tocar na bandeira … tem penalização. As amigas podem encontrar no Golfe o melhor escape para os seus ‘hazards’…quatro a cinco horas de jogo. Diga lá querida Ivone, às candidatas a espera maridos, se não é muito melhor que serem viúvas…de Golfe.
    😛

  3. Ana Vidal diz:

    “Um marido é uma coisa decente. É decente, mas não é um básico essen­cial.”

    Quanta sabedoria, Ivonezinha. Mas a tua amiga só vai perceber isso quando conseguir distinguir pulseiras de casacos de Inverno, e isso é uma coisa que ela vai ter de descobrir sozinha… 😉

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Pois, querida Ana, mas receio que ela só o compreenderá depois de se vestir com um marido e descobrir que continua a fazer frio … 🙂

  4. nanovp diz:

    Matar o que não existe pode ser mais emocionante…

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Dizia-se que todo o homem mata a coisa que ama… Aliás, já nem sei se se dizia, se se cantava…

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Manel, com esse belo comentário fez-em logo lembrar do Marco Beasley e do Pino di Vittorio a cantarem “Stu pettu è fattu cimbalu d’amuri” uma das coisas mais estarrecedoramente belas que já ouvi.

  6. 🙂 Mt bom., vou publicar no meu mural FB 🙂 Essa do been there, bought the t-shirt, do melhor. Mas todo o post é humor e uma fina e irónica sabedoria… 🙂

  7. Entretanto, as guitarras também andam com instintos:

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    De novo, deixou-me em contemplação. Obrigada, Ivone.

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