One minute friends, one life lovers

 

Começou com um minuto. Um minuto em que apenas ouviram o tempo a passar. E a respiração do outro a suspirar, mesmo sem o saberem ou sem o quererem (quem quer o futuro quando se tem tanto presente para viver?), pelo futuro que aí viria. Um minuto em que, nalgum daqueles sessenta intermináveis segundos, sentiram, mesmo sem o perceberem logo, naquele ligeiro e quase imperceptível toque, o primeiro assomo da pele que, algures por esse futuro, seria a minha/tua/nossa pele. Um minuto tão decisivo que transformou em eternidade todos os minutos que, a partir daí, passaram juntos. Para uns, o minuto de uma vida que não tiveram. De uma vida que ficou suspensa à espera que a contagem recomeçasse. Para outros, os que sempre souberam que o tempo não lhes voltaria as costas, um minuto que durou muitos anos. Um minuto de muitos anos, décadas mesmo, que, numa certa noite – porque é de noite, sempre de noite, que o tempo faz justiça -, encontrou, finalmente, o minuto que lhe deu a sequência perfeita, o tal segundo minuto que acabou com a dúvida. A dúvida essencial, a primeira e última, que os fez, e nos faz, andar atrás do tempo. A tal dúvida que, elegante e diplomaticamente, se retira sempre nesses casos, com ares de triunfante derrota. No lugar que deixa, dizem que ficam quatro misteriosas letras. Que todos querem mas que ninguém sabe bem o que significam.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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4 respostas a One minute friends, one life lovers

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    L’ homme qui ne dort pas … à bon entendeur … Beijos, querídissimo Diogo.

  2. Bruto da Silva diz:

    Quarenta à sombra (mesmo com muito AMOR) torna tudo mais agreste…

  3. nanovp diz:

    O infinito num minuto, é tudo uma questão de zeros, ou como o amor não tem tempo …

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Feliz pela sequência perfeita dos segundos iniciáticos, querido Diogo.

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