Os comboios, a estrada, a morte

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A morte não é só habitual, é constante. E é, sempre, um sobressalto: a humanidade sempre chorou mesmo a mais natural das mortes, rasgou as vestes nas mortes trágicas, mães e pais rojaram-se no chão quando intempestivamente lhes morreram os filhos.

Por vergonha – outros dirão que por civilização – temos desenvolvido, nas últimas décadas, uma cultura que visa “naturalizar” a morte. Procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de “pessoas civilizadas” já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres, olhos atirados ao céu, aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor.

Nos velórios, as pessoas dão hoje, com ar só ligeiramente mais grave do que o habitual, os pêsames e, a seguir, juntam-se cá fora aos amigos, procurando todos recordar, deles e do morto, episódios divertidos ou meio nostálgicos. Sobretudo reprimem lágrimas e convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.

Só que, de vez em quando, a nossa recalcada natureza regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco, irrevogável. Da Ilíada ao Hamlet, com narrativas de violência e morte, Homero e Shakespeare, se de alguma coisa foram cantores, foi desse triunfo da natureza, do conflito e da crueldade. Quando vejo os telejornais abrirem com tragédias, a silenciosa linha dos cadáveres alinhados ao longo de uma estrada italiana ou de uns carris galegos, é a velha humanidade, um verso de Homero ou de Shakespeare, que, traduzido mais do que tradito, surge em prosa televisiva.

Por mais certa, segura, inevitável, a morte é ainda um choque, um absurdo (filhodaputamente lógico, é verdade), um roubo, uma canalhice. Pede gritos, lágrimas, ranho e fúria – o triste e mais humano dos espectáculos. Cada morto é um Patróclo, cada sobrevivente crava, como Aquiles, as mãos na terra para espalhar lama nos cabelos e deixar que, grossas, lhe corram lágrimas pelo rosto – são sempre grossas as lágrimas do herói clássico. E se somos todos heróis clássicos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Os comboios, a estrada, a morte

  1. António Barreto diz:

    A “naturalização” da morte, será afinal, sintoma do enfraquecimento da importância dos elos afetivos das sociedades ditas desenvolvidas e, portanto, um paradoxo das “doutrinas” políticas respetivas?

    Caro Manuel; há certas formas de morrer que doem mais que a própria morte em si; não concorda?

    Lá terei que ir de novo ao dicionário e com gosto, pois Patróclo é uma palavra bonita; parece nome próprio!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Tem razão, António,´a morte dói sempre, mas há formas que doem mais.

  2. nanovp diz:

    Pois então se a morte é parte da vida : uma não existe sem a outra; “naturalizar” e “relativizar” a sua essência só resulta na perda da verdadeira humanidade…E ontem passou “Week End” na cinemateca, coincidência Manuel?

  3. riVta diz:

    também me fez pensar o espectáculo do alinhamento de cadáveres que era impensável há uns anos atrás na televisão pública ou não
    também me fez pensar.

  4. A naturalização da morte como a normalização da fruta ou do amor. Dessensibilizamo-nos: é o chique pós-moderno.

  5. Caro Manuel, hoje já ninguém morre como antigamente, como também já ninguém vive como antigamente. Hoje morre-se e vive-se em sociedade e em educação, em vez de em fôlego e arrebatamento. Perdemos, claro, mas nem pensamos muito nisso. Pensar a sério também pode ser perigoso…

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